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Fome e Insegurança alimentar – Estamos a dar passos atrás

Fome e insegurança alimentar crescem, em vez de regredirem. Chegou o momento de reconsiderar a forma como cultivamos, partilhamos e consumimos os alimentos.

Como sabemos, acabar com a fome no mundo está entre os principais objetivos da Agenda 2030, uma agenda alargada e ambiciosa que aborda várias dimensões do desenvolvimento sustentável (sócio, económico, ambiental) e que promove a paz, a justiça e instituições eficazes.

Contudo, o panorama global da alimentação no mundo está a piorar, uma vez que não está a diminuir o número das pessoas que passam fome, a insegurança alimentar está a crescer, e a qualidade das dietas está também a piorar. Para além disto, as desigualdades entre as regiões do mundo não estão a recuar e a invasão e guerra na Ucrânia está a agravar o panorama mundial.

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Estes são os dados essenciais do mais recente relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição há dias publicado pelas Nações Unidas, com o contributo de cinco das suas organizações; Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Programa Alimentar Mundial (PAM), UNICEF ​​e Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Relatório, intitulado ‘Situação da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2022’, está publicado em inglês e mostra que o mundo deu passos atrás nos seus esforços para erradicar a fome e a subnutrição. Vejamos mais em detalhe o que nos diz.

Segundo o mesmo, o número de pessoas que passam fome no mundo pode ter atingido 828 milhões, o que representa uma percentagem que não andará longe dos 10 por cento da população mundial.

“Depois de permanecer relativamente inalterada desde 2015, a prevalência de desnutrição saltou de 8,0 para 9,3 por cento de 2019 para 2020 e aumentou a um ritmo mais lento em 2021 para 9,8 por cento”, refere o estudo.

O número cresceu 150 milhões desde o início da pandemia de covid-19, mais 103 milhões de pessoas entre 2019 e 2020 e mais 46 milhões em 2021. “O aumento da fome global em 2021 reflete desigualdades exacerbadas entre e no interior dos países devido a um padrão desigual de recuperação económica entre países e perdas de rendimentos não recuperadas entre os mais afetados pela pandemia”, explica o documento das Nações Unidas.

 

Insegurança Alimentar

O cenário é grave e preocupante. Olhando também em retrospetiva, a pandemia teve um impacto importante no agravamento da situação global.

No ano passado perto de 2,3 mil milhões de pessoas no mundo encontravam-se em situação de insegurança alimentar moderada ou grave, 350 milhões mais do que antes do surto da pandemia de covid-19 e quase 924 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar em níveis graves, um aumento de 207 milhões em dois anos.

A diferença de género na insegurança alimentar continuou a aumentar em 2021: 31,9 por cento das mulheres no mundo estavam em insegurança alimentar moderada ou grave, em comparação com 27,6 dos homens, ma diferença de mais de 4 pontos percentuais, em comparação com 3 pontos percentuais em 2020.

Quase 3,1 mil milhões de pessoas não puderam pagar uma dieta saudável em 2020, 112 milhões a mais que em 2019, refletindo os efeitos da inflação nos preços dos alimentos ao consumidor devido ao impacto da pandemia.

 

45 milhões de crianças sofrem de emagrecimento extremo

O estudo faculta alguns indicadores alarmantes relacionados com o impacto dos problemas alimentares nas crianças, calculando que 45 milhões com menos de cinco anos sofram de emagrecimento extremo (ou emaciação), a forma mais mortal de desnutrição, o que aumenta o risco de morte das crianças até 12 vezes.

Além disso, 149 milhões de crianças com menos de cinco anos tiveram crescimento e desenvolvimento atrofiados devido à falta crónica de nutrientes essenciais nas suas dietas. Em contrapartida, 39 milhões apresentavam peso a mais.

 

A guerra na Ucrânia

A guerra em curso na Ucrânia, que envolve dois dos maiores produtores mundiais de cereais básicos, sementes oleaginosas e fertilizantes, está a pressionar as cadeias de abastecimento internacionais e a fazer subir os preços dos cereais, fertilizantes, energia e alimentos terapêuticos prontos a usar para crianças que sofrem de desnutrição grave.

Tudo isto está a acontecer enquanto as cadeias de abastecimento já estão a sofrer de eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes, especialmente em países de baixos rendimentos, com consequências potencialmente prejudiciais para a nutrição global e a segurança alimentar.

No prefácio deste ano, os chefes das cinco agências da ONU escreveram: “Este relatório destaca repetidamente a intensificação dos principais fatores de insegurança alimentar e subnutrição: conflitos, fenómenos climáticos extremos e crises económicas, combinados com desigualdades crescentes. A questão principal não é tanto se a adversidade vai continuar, mas sim como tomar medidas mais corajosas para construir resiliência contra crises futuras”.

A mais recente pesquisa sobre insegurança alimentar no Brasil, publicada no início deste mês pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), revela que 33 milhões de brasileiros passam fome no país. Por outro lado, um levantamento feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) mostra o Brasil como um dos países com mais desperdício de comida no mundo, totalizando 27 milhões de toneladas de alimentos por ano. Mas há formas de mudar essa realidade contrastante. Uma delas está facilmente ao nosso alcance: por meio da aplicação da gastronomia sustentável.

 

Gastronomia sustentável como aliada no combate à fome e insegurança alimentar

Gastronomia sustentável é o processo de cozinhar que se foca na origem dos ingredientes, a forma como os alimentos são cultivados, os meios pelos quais chegam ao mercado e aos pratos dos consumidores.

Aqui, o foco é escolher alimentos que não sejam apenas saudáveis para o corpo, mas também para o meio ambiente e para toda a cadeia produtiva.

A iniciativa é tão importante que, desde 2016, a ONU definiu no calendário o dia 18 de junho como o Dia da Gastronomia Sustentável. Cerca de um terço dos alimentos produzidos anualmente para o consumo humano perde-se ou é desperdiçado. Isso equivale a mais ou menos 1,300 bilhões de toneladas de alimentos, de acordo com a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO).

Os restaurantes podem e devem focar nas novas oportunidades de sustentabilidade, como, por exemplo, adoção dos princípios da economia circular com produtores e distribuidores locais, implementação de menus que minimizem produtos prejudiciais ao meio ambiente, estabelecimento de parceria com outras empresas para gerir melhor as relações de concorrência na cadeia de abastecimento alimentar, proibição de plásticos descartáveis e promoção de energia limpa para os restaurantes locais.