//Chefe Silva – Biografia (6)

Chefe Silva – Biografia (6)

Foi para Lourenço Marques (Maputo) e trabalhou no Hotel Girassol, no Hotel Xai Xai e no restaurante do Aeroporto.

Moçambique

Em 1958 seguiu viagem com destino à capital de Moçambique, Lourenço Marques (hoje Maputo), para o Hotel Girassol com a categoria de Chefe, deixando Maria da Graça na então, “Metrópole”. Estávamos no início da guerra do “Ultramar”.

Neste mesmo ano, o poeta e cantor José Afonso (Zeca Afonso), por dificuldades económicas, enviou os dois filhos para Moçambique, para junto dos avós.

Durante os primeiros dois anos de África, o Chefe António, como ali era conhecido, ainda que sem o saber, poderá ter-se cruzado nas ruas de Lourenço Marques com um jovem, de nome Eusébio, que jogava de leão ao peito no Sporting de Lourenço Marques.
Benfiquista assumido mas moderado, talvez nem se tenha apercebido da polémica que envolveu o negócio da transferência do menino de 18 anos, devido à luta que houve entre os dois rivais de Lisboa para conseguir o passe do rapaz. No entanto, o Sport Lisboa e Benfica ofereceu mais por um contrato, e Eusébio rumou à Luz corria o ano de 1960.

Em Lourenço Marques teve que se adaptar aos produtos locais embora ali existissem muitos daqueles a que se habituara em Lisboa.
Sempre disponível para ensinar, nunca descurava a oportunidade de ganhar novos conhecimentos. Recorda, como exemplo, que com os goeses, aprendeu que o caril de caranguejo nunca deve estar tapado senão o molho corta, fica talhado e nunca mais liga.

Entretanto, nas suas cartas que naquele tempo para mais rápida chegada ao destino ostentavam a indicação “por avião”, Maria da Graça por entre declarações e juras de amor queixava-se da crescente má relação com a madrinha, pois o afastamento do noivo colocava à senhora sérias dúvidas quanto às intenções futuras do rapaz.
As queixas e os desabafos tristes da amada, cada vez mais frequentes, pressionavam o jovem a encontrar uma solução quanto à continuidade do relacionamento. A decisão foi tomada quando “ela me convenceu que o melhor era ir ter comigo”, conta embevecido.
Casaram por procuração e a Senhora Silva embarcou para Lourenço Marques ao encontro do, então já, seu marido.

No ano de solteiro que passou em Moçambique a ganhar “um ordenado superior ao de um oficial do exército” António Silva apenas conseguiu amealhar pouco mais de três mil escudos (15 €).
Não sendo homem de excessos vínicos ou outros relacionados com dependências, com toda a naturalidade surge a explicação: “É que, com os meus 24, 25 anos, eu não gostava só dos africanos. Gostava também das africanas. De forma diferente, claro”, ressalva gesticulando para reforçar a afirmação.

Uma paragem no relato e o Chefe, do alto do seu estatuto de septuagenário, lança uma das sua habituais “saídas” com tempero filosófico:
“Posso dizer que vivi bem a minha juventude. O problema é que naquela altura eu não sabia que era jovem. Sabia que era novo, mas não que era jovem”.

A partir da chegada da novel esposa, garante que passou “a ter juízo”, tanto mais que em 1960 nasceu o primeiro filho. O rebento foi batizado com o nome de Domingos mas ele referia-o orgulhoso como o seu “coca-cola”, assim se chamava então aos brancos nascidos em Lourenço Marques.

Trabalhou no Hotel Girassol, onde não encontrou “grandes diferenças na cozinha, em relação ao que se fazia cá”.
A sua intervenção inicial centrou-se “na aplicação de novos métodos de trabalho, embora também tenha feito algumas criações e recriações ao nível dos pratos claro, porque essa era também a minha tarefa”.
Tudo isto, com um Chefe que apesar de alguma experiência, tinha apenas 25 anos. Temendo que a tenra idade pudesse de alguma forma diminuir-lhe a credibilidade, numa entrevista que concedeu a Guilherme de Melo pediu ao jornalista que lhe acrescentasse mais três anos.
Dos clientes, recorda que eram empresários, políticos e militares. Esmagadoramente “metropolitanos”, claro. Refere de entre a clientela, António de Almeida Santos, que viria a tornar-se um destacado dirigente do partido Socialista e que exerceu advocacia em Lourenço Marques entre 1953 e 1974.

Ainda do Girassol, recorda aquela vez em que lá esteve uma seleção portuguesa de hóquei em patins “e tive a grande alegria de me aparecer o Virgílio, de Paço Darcos, que tinha estado comigo na tropa”.
Recorda ainda “aquela vez em que tive que fazer um bocado de teatro”. E passa a descrever o episódio do cliente que ao ser surpreendido com uma pequena pedra no arroz, mandou chamar o Chefe da cozinha pois este teria que lhe pagar as despesas do dentista.
Do lugar onde se encontrava, à vista do cliente, espetou a faca na mesa e disse “podes dizer ao cliente que se quiser, começamos já com a anestesia”.
Por via das dúvidas, o cliente preferiu terminar ali a reclamação.
Talvez para acalmar tenha ido ao bar do hotel com o sugestivo nome de “Farmácia” para tomar um “xarope”, como muito apropriadamente ali chamavam ao uísque.

Foi depois para o Hotel Xai Xai na famosa praia com o mesmo nome, a pouco mais de 200 kilómetros da capital, onde permaneceu durante dois anos.
Lembra-se do bacalhau à praia, um prato muito apreciado e que era uma espécie de bacalhau á Gomes de Sá com um creme que parecia uma massa de pudim com farinha e que ia ao forno a gratinar. Foi criado pelo cozinheiro anterior e aperfeiçoado pelo Chefe Silva que recorda o facto de em Lourenço Marques existir bastante bacalhau “e do bom, porque havia dinheiro para o pagar, ao contrário do que se passava em Lisboa”.
Para reforçar a revelação, afirma: “Eu cheguei a mandar bacalhau para o meu irmão, para a consoada de Natal”.

O Xai Xai era um lugar de requinte, para a classe média que ali alugava moradias.
A maioria dos clientes era sul-africana mas para lá se deslocavam igualmente muitos portugueses, sobretudo ao fim de semana. Sabia perfeitamente que aquele era um local frequentado por muitos políticos importantes e com responsabilidades na “política colonial”. Mas não estava desperto para as questões políticas. O que não quer dizer que não tivesse opiniões que, cautelosamente, guardava para si próprio.
Lembra que a primeira coisa que sentiu foi “isto não é terra de brancos, é terra de pretos. Até o nevoeiro era preto”.
Quanto à relação com os moçambicanos negros “havia de tudo. Havia pessoas que os compreendiam e tratavam bem, mas também vi tratarem-nos muito mal. Mas sobre isso não quero falar mais porque de facto havia pessoas que foram para lá só com a intenção de explorar o negro. E isso incomodava-me”.
Afirma ter-se sentido sempre bem na sua relação com os moçambicanos e que até aprendeu a falar o dialeto xangane (do mato) e o ronga (da cidade) o que facilitou o estabelecimento de amizades com os nativos seus ajudantes.

Do Xai-Xai foi para o restaurante do aeroporto que era dos mesmos proprietários da, na altura muito famosa Pastelaria Princesa de que ainda hoje se fala muito e que tinha o bife mais conceituado de Lourenço Marques, “que não passava de um bife do pojadouro picadinho feito com molho de natas”, revela.

Confrontado com a pergunta: “valeu a pena lá ter estado?” o Chefe responde sem hesitação: “Claro que valeu a pena. Eu aprendo com toda a gente que tenha algo para me ensinar. E aprendi muito com eles”.
Já quando a interrogação pretende saber resultados financeiros, reconhece que não foi tão compensador “mas por minha culpa que não controlava muito bem a receita e a despesa”.

Quanto à opinião política sobre o conflito africano, responde com a maior naturalidade que “nessa altura, ou mesmo ainda hoje, eu nada sabia de política, mas tinha consciência de que aquilo era deles. Comentava isso com a minha mulher, mas tinha que ser com muito cuidado, quase debaixo dos lençóis”.

Em 1963 nasceu Carlos o segundo filho, e em 1965 com a guerra em ebulição, a instabilidade fê-lo regressar.
Nesse mesmo ano regressaria também a Portugal, depois de uma comissão de dois anos, o Alferes Cavaco Silva e sua esposa. O mesmo Cavaco Silva que, depois de ter sido primeiro ministro de Portugal, foi eleito Presidente da República Portuguesa em 2006.

(Nota – Os textos aqui reproduzidos foram publicados em 2008 pelo que poderão verificar-se ‘desatualizações’)

Fotos de Capa: Hotel Girassol 1961 (Blog The Delagoa Bay World) e Hotel Xai Xai (Blog estacaochronographica.com)

 

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.

Nota – Pode consultar todos os capítulos já publicados em: https://jornalsabores.com/category/gastronomia/chefe-silva/