//A Academia que passou a ‘Confraria Enogastronómica da Madeira’
confraria da madeira

A Academia que passou a ‘Confraria Enogastronómica da Madeira’

‘Grande Capítulo’ desta confraria constituiu uma excelente jornada de promoção turística da Madeira.

Estive presente, em representação da Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), naquele que é o momento alto da vida das confrarias: o Grande Capítulo no qual são ‘admitidos’ (entronizados) novos confrades e confreiras. Já agora, também se pode usar a designação confrade para os dois géneros.

Marcaram presença no Grande Capítulo da Confraria Enogastronómica da Madeira, entre 22 e 25 de abril, mais de duas dezenas de confrarias de Portugal, Espanha, França, Bélgica, Suíça, Itália e Estónia, algumas das quais relacionadas com o vinho, para além da AMPV e da Federação das Confrarias Báquicas de Portugal mas, a grande maioria, em representação da atividade gastronómica.

confraria enogastronomica da madeira

Participei em apenas dois dos quatro dias de atividade que os anfitriões proporcionaram, mas não resisto a tecer algumas considerações sobre o que observei e senti, tendo em conta a minha atividade relacionada com os programas de televisão que apresentei entre 2000 e 2005 que me permitiram uma ligação intensa com o ‘mundo’ confrádico em que participei durante mais alguns anos como confrade e ao qual me tenho mantido atento, sobretudo na qualidade de jornalista.

Destaco desde já a excelente relação da Confraria Enogastronómica da Madeira com os organismos oficiais visitados o que, a avaliar pelas ‘queixas’ que se ouvem, não acontece com uma boa parte das confrarias existentes, facto que merecaria ser analisado e discutido. Este é um assunto que abordei há cerca de dois anos neste texto:https://jornalsabores.com/confrarias-municipalizadas/

Em Porto Santo, o presidente e o vice-presidente do município receberam a comitiva à porta do edifício da Câmara Municipal, numa manifesta ‘interpretação’ da componente turística, logo promocional, de que a visita se revestia. O entusiasmo com que o jovem autarca apresentou a sua ilha e falou dos futuros projetos inovadores na componente ecológica, no aumento da dessalinização já existente e na aposta em vitivinicultura, para além da visita a alguns locais de Porto Santo fizeram-me querer lá voltar brevemente e com mais tempo. E pelo que ouvi, também a muitos outros elementos da comitiva.

No dia seguinte, aconteceu a cerimónia do Grande Capítulo que teve lugar no Salão Nobre do Parlamento madeirense, com o Presidente da Assembleia Legislativa também a receber pessoalmente a comitiva e, no seu discurso, depois de lembrar que a celebração da independência dos Estados Unidos foi comemorada com um brinde de vinho Madeira, fazer votos de que “dentro de pouco tempo seja possível levantar um copo de vinho Madeira e brindar à paz entre a Ucrânia e a Rússia”.

madeira

José Manuel Rodrigues felicitou a Confraria madeirense na pessoa do seu presidente, Alcides Nóbrega, por ter sido eleita para a presidência da direção da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, de que é uma das fundadoras, sublinhando “o papel das confrarias na salvaguarda e divulgação da cultura gastronómica”.

Até mesmo as duas refeições servidas em restaurante de hotel que, confesso, me fizeram ‘desconfiar’ foram uma boa surpresa. Em Porto Santo foi servido um excelente atum rabilho com puré de batata-doce, homenageando dois excelentes produtos locais.

No chamado jantar de Gala, após as entronizações, muitas vezes aproveitado para se ‘armar ao pingarelho’, a variedade e a qualidade dos produtos, que foram ‘respeitados’ na confeção, valorizaram a gastronomia madeirense, provando que é possível respeitar os produtos locais, com abordagens culinárias mais modernas e adptadas ao espaço onde são servidas.

Não posso deixar de sublinhar a inclusão, nestas duas refeições, de vinhos madeirenses que, sobretudo os brancos, merecem uma atenção especial dos enófilos pela qualidade crescente que vêm apresentando, apesar de preços que, inevitavelmente, têm que refletir os elevados custos dos fatores de produção. E esta confraria tem particulares responsabilidades na promoção do Vinho Madeira e também dos tranquilos já que, 19 anos depois da sua constituição, passou a designar-se Confraria ENOgastronómica.

A propósito, aqui vos deixo um pequeno apontamento da história desta confraria.

Nasceu como Academia Madeirense das Carnes, em abril 2000, por iniciativa de um grupo de amantes de comida tradicional madeirense, em especial do receituário associado a carne.

Um dos eventos emblemático deste grupo foi um jantar de protesto ao embargo da comunidade europeia ao consumo da carne de vaca pelo risco de contaminação com a BSE, vulgarmente conhecida como doença das ‘vacas loucas’, por entenderem que os dados existentes não justificavam essa proibição. O prato principal foi uma costeleta de vaca e teve grande repercussão nos meios de comunicação social.

Imbuídos desse espírito de salvaguarda e com o conhecimento da existência do movimento confrádico com o intuito proteger e divulgar os produtos e as receitas gastronómicas genuínas de uma determinada região, o grupo evoluiu para Academia Madeirense das Carnes / Confraria Gastronómica da Madeira abraçando toda a gastronomia regional.

A Confraria, desde a sua fundação, alia a cultura báquica à gastronómica, nomeadamente brindando na abertura dos seus eventos com o histórico Vinho Madeira. Nas últimas décadas, com o surgimento e evolução dos vinhos tranquilos madeirenses, os confrades madeirenses sentiram vontade de também os acarinhar.

Em 2019 esta inclusão é formalizada com novos estatutos e consequente alteração de denominação, transformando-se em CEM – Confraria Enogastronómica da Madeira, com a missão de defender, preservar, promover, divulgar, prestigiar e valorizar a cultura báquica e gastronómica da Região Autónoma da Madeira, incluindo os seus usos e costumes, as suas tradições e as técnicas e tecnologias inerentes à sua produção. 

É também filiada na FCBP – Federação das Confrarias Báquicas de Portugal e  na FICB – Federação Internacional das Confrarias Báquicas.

 

Amilcar Malhó