A história e a tradição do Capão no Natal

No passado dia 13, mais uma vez, na Romaria de Sta Luzia em Freamunde, se compraram galos capões a 50/60 euros para a consoada.

Calcula-se que se venderam este ano mais de 2.000 ‘Capões de Freamunde’ (Paços de Ferreira), castrados em março, com 3 meses de idade e desde este ano certificados pela Comissão Europeia como produto com Indicação Geográfica Protegida – IGP.

Os galos que se «transformam» em capões são de raças tradicionalmente criadas nesta região e são preferidos os que têm quilha torta, veia grossa debaixo da asa e crescimento lento. Normalmente alcançam um peso compreendido entre os 4 e os 7 Kg.

De acordo com o modelo tradicional, a operação de castração dos frangos, após jejum de dia e meio, é efetuada apenas por mulheres porque, dizem elas, “aos homens faz-lhes impressão ver alguém ficar sem os testículos”, num misto de justificação e provocação.

Deplumado o galo junto da última costela, faz-se, após desinfeção, um golpe de 4 cm e com um dedo untado em azeite procede-se à extração dos testículos. A ave fica em liberdade não se deixando empoleirar durante 4 dias. São tradicionalmente vendidos vivos e não devem ter mais de 250 dias após a castração. Durante esse tempo são engordados a milho e couve. Infelizmente, cerca de um terço dos «capados» acaba por morrer devido a infeções o que, de certa forma, justifica o valor que por eles se paga.

A grande vantagem do capão é ficar “mais gordo, mais suculento e mais tenro” diz quem sabe e que já provou. No Natal, o Capão à Freamunde (recheado) é servido na consoada (ver receita tradicional no final deste texto).

História e lenda

Conta-se que o Cônsul Romano Caio Cânio, cansado da perda do sono por causa do cantar dos galos, conseguiu fazer aprovar uma lei impeditiva da existência destas aves na cidade de Roma. Para não contrariar a lei mas continuar a criar os seus galos, alguém se lembrou de os capar para que deixassem de cantar ou, que passassem a «cantar baixinho». Verificaou-se então que o galo capado (capão), ultrapassava em beleza, tamanho e sabor, o galo macho. O «voto» de castidade torna o animal passivo e com um ar triste e envergonhado, mas torna-o gordo, opulento, dotado de uma carne tenra e considerada das mais saborosas de todas as aves.

Capão à Freamunde (receita tradicional)

Embriaga-se o capão, com um cálice de vinho do porto e passado meia hora, mata-se, depena-se, abre-se e lava-se. Depois de estar em água fria com rodelas de limão, cerca de uma hora, põe-se a escorrer e mergulha-se em “vinha de alhos” (molho de vinho branco, algumas colheres de azeite, sal e pimenta, e vários dentes de alhos esmagados). Deve ficar neste molho, de véspera, e proceder-se a diversas viragens, esfregando o capão. No dia de o consumir, põe-se ao lume uma caçarola com azeite, gordura de porco e cebolas às rodelas.

Quando a cebola está estalada, deita-se uma boa colher de sopa de manteiga, meio quartilho (2,5 dl) de vinho branco e sal q.b.. Escorre-se o capão, esfrega-se todo com este molho e receheia-se com “farófia” e um picado feito com os “miúdos” do capão e pedacinhos de salpicão e presunto. Coloca-se na assadeira, de preferência uma pingadeira de barro e leva-se ao forno a assar lentamente, picando-o com um garfo de vez em quando, ao mesmo tempo que se rega com o molho da assadeira. A operação de picar com o garfo deve ser cuidadosa para não ferir a pele que deve ficar estaladiça e loura.

Receita: Associação de Desenvolvimento Rural das Terras do Sousa

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