//Vinhos ‘rupestres’: já ouviu falar?

Vinhos ‘rupestres’: já ouviu falar?

No concelho de Valpaços encontra-se a maior concentração de lagares rupestres de toda a Península Ibérica.

Em 2017, realizou-se em Valpaços o I Simpósio Ibérico de Lagares Rupestres, iniciativa que trouxe para o conhecimento público a intenção de se recuperar esta forma milenar de produzir vinho para que possa contar-se, em Portugal, com mais um vinho ‘diferenciado’ e com história, a exemplo do que acontece com o vinho de talha no Alentejo. E a inclusão dos lagares rupestres na lista do património mundial da UNESCO também é já um objetivo.

Os lagares escavados na rocha, mais de uma centena no concelho de Valpaços, estão entre os vestígios mais antigos associados ao cultivo da vinha no Douro e em Trás-os-Montes e há investigadores que acreditam que, neste território, a produção de vinho pode mesmo remontar à época pré-histórica.

A Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes (CVRTM) produziu em 2017, sem fins comerciais, um vinho em lagar rupestre a que chamou ‘Calcatorium’, apresentado como “um tinto de cor aberta, com frescura e muito agradável de beber. Sabendo-se como atualmente a diferença, a originalidade e carga histórica são importantes aliados da construção de notoriedade os vinhos rupestres podem, de facto, constituir uma boa aposta. Um vinho que deverá integrar o conjunto de ‘Vinhos Históricos’ como o Medieval de Ourém, o vinho de Talha, o vinho do Pico ou mesmo o ‘Callum’ e o Colares.

De forma simplificada, o método pode explicar-se da seguinte forma: o tanque de granito onde as uvas eram pisadas situava-se na parte mais alta e plana da rocha. Desta forma, o líquido vertia facilmente para uma lagareta (pequeno lagar) situada mais abaixo. Pode dizer-se que o vinho rupestre era de bica aberta, técnica em que a fermentação se realiza no mosto, separado das partes sólidas da uva (engaços e películas).

Vinho de Lagar Rupestre
Com a portaria n.º 222/2020 publicada em DR, entre outras determinações, é reconhecida a vinificação em lagares rupestres como um método tradicional de produção da região, que deve “seguir os métodos de vinificação tradicionais e as práticas e tratamentos enológicos legalmente autorizados, incluindo-se nos métodos tradicionais a vinificação em lagares rupestres, cujos vinhos assumem a designação de ‘vinho de lagar rupestre’, desde que produzidos em conformidade com o disposto em regulamento próprio emitido pela entidade certificadora”.

O Enoturismo
A Associação Portuguesa dos Lagares Rupestres (LARUP) possui uma página no facebook – infelizmente, aparentemente sem atividade há mais de um ano – onde se refere que:
“Os lagares rupestres existentes em toda a bacia Mediterrânica estão associados à forma mais primitiva de produzir vinho. Muitos deles anteriores à nossa era e cujo uso se prolongou ao longo dos séculos. Na Península Ibérica está identificado um elevado número destes lagares com particular incidência no Concelho de Valpaços.
Reconhecendo-se que estes lagares se localizam, na sua quase totalidade, no interior do país e em afloramentos graníticos, num território envelhecido e cuja desertificação se pretende reverter, a abordagem do enoturismo envolvendo os lagares rupestre, contribuirá para a valorização do território potenciando atividades associadas e, naturalmente, o desenvolvimento da economia local”.

Fotos: CRVTM