//O exemplo dos ‘Vinhos de Pias’

O exemplo dos ‘Vinhos de Pias’

Os Vinhos de Pias, que não são de Pias, como exemplo da necessidade de ler as informações.

Nos últimos meses voltou o debate sobre a utilização do nome desta freguesia do concelho de Serpa que, na prática, pode ser usado por qualquer pessoa, para vender qualquer produto.

Faz-me lembrar uma anedota que me contou um amigo alentejano da Amareleja – onde é atual presidente da Junta de Freguesia – e que, resumidamente é assim:
Num mercado de rua às portas de Lisboa, quando chegava o vendedor de produtos agrícolas e colocava o cartaz onde se lia ‘Produtos da Amareleja’, formava-se imediatamente uma enorme fila e em pouco tempo desapareciam a mercadoria em venda.
Na semana seguinte, o vendedor de peixe que normalmente ali ficava o dia todo e ainda levava peixe de volta, já a cheirar a muitas horas sem frio, resolveu arriscar. Chegou, colocou um cartaz com a informação: ‘Sardinhas da Amareleja’. Em pouco tempo vendeu todo o peixe.

A narrativa engraçada demonstra a importância que pode ter o uso de nomes fortes. É fácil associar a Amareleja a um interior desse Alentejo ‘genuíno’ que atrai tanta gente, situação que se repete com o nome Pias que talvez tenha sido reforçada pelo sucesso do vinho ‘Encostas do Enxoé’ produzido pelos Vinhos Margaça… de Pias.

Quando em julho de 2017 o ‘Jornal dos Sabores’ publicou um artigo com o título ‘Os vinhos de Pias que não são de Pias’ já se contavam mais de uma dezena de marcas de vinho em Bag in Box que usavam nomes como Arca de Pias; Alma de Pias; Castelo de Pias; Chão de Pias; Ermida de Pias; Lagar de Pias; Porta de Pias; Só Pias, etc. Atualmente, seguramente que serão mais de três dezenas.
Fui interveniente numa conversa – que conto no referido artigo – em que alguém recomendava: “Leva este que é alentejano, é de Pias”. Perante a minha observação, verificaram as informações da embalagem, em Bag in Box, onde se podia ler ‘Vinho da UE’. Claro que ficaram desiludidos, mas reconhecidos para o alerta quanto à necessidade de passarem a observar melhor as informações constantes nas embalagens.
No caso referido, isto quer dizer que se trata de uma embalagem que pode, legalmente, não incluir uma gota de vinho de Portugal. Se na embalagem estiver escrito ‘Produto de Portugal’ é porque tem vinho português, embora a qualidade possa até ser menor. Mas para ser um vinho que tenha alguma relação com o Alentejo, não necessariamente com Pias, então terá que incluir a informação de se tratar de ‘vinho regional alentejano’.

Concluindo: existem no mercado vinhos efetivamente com origem em Pias, mas apresentam o selo de ‘vinho regional alentejano’. Existem muitos outros, normalmente em Bag in Box, que usam a palavra Pias, mas se não apresentam esta referência, podem ser de qualquer país da União Europeia e por isso se indica ser ‘Vinho da EU’.

Claro que a questão que aqui se levanta não se refere à qualidade, mas sim à origem, à proveniência das uvas e consequentemente do vinho que adquirimos.

Para não comprar ‘gato por lebre’, leia sempre os rótulos e contra-rótulos, bem como as informações nas embalagens sejam de vinhos ou de outros produtos alimentares.

Amílcar Malhó

O artigo ‘Os vinhos de Pias que não são de Pais’ já foi lido por mais de 40 mil pessoas. Se ainda não o leu, pode fazê-lo através deste link: