//Vinho e Poesia: que relação?

Vinho e Poesia: que relação?

Beba vinho porque… Bem, você encontrará uma razão (Luís Fernando Veríssimo)

Há quem diga que gosta muito, apenas porque fica bem. No caso da poesia porque dá uma imagem de intelectualidade, no caso do vinho, de modernidade, porque o vinho está na moda.

No sentido figurado, talvez se possa dizer que poesia é tudo aquilo que comove, que sensibiliza e desperta sentimentos. Quando lemos ou ouvimos um poema, esperamos que nos surpreenda, que nos toque, que fique, no todo ou em parte, na nossa memória.
Quando começamos a entender a beleza de apreciar um vinho, também esperamos um aroma que nos surpreenda ‘revelando associações a frutos vermelhos, ou mesmo baunilha, uma cor que nos crie expetativa para um sabor que provoque sensações e que se mantenha por algum tempo ou mesmo que entre no arquivo das boas memórias.

A poesia em verso é muito mais acessível que a poesia em prosa que é apreciada, normalmente, por quem já leu e apreciou muita literatura deste género e mais facilmente apreende a mensagem e o pensamento do autor.
Também nos vinhos existem aqueles que são mais acessíveis, que simplesmente agradam ou não. E outros que se definem como mais complexos, que exigem uma maior capacidade de perceção dos aromas e requerem toda a ‘atenção’ das papilas gustativas. E que nos fazem querer saber (beber) mais.

Fernando Pessoa terá escrito: “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só”.
Também ler poesia pode ser um prazer solitário. O silêncio, normalmente, permite melhor concentração.
Igualmente beber vinho, pode ser um prazer solitário. O silêncio permite melhor concentração, maior capacidade de arrumar ideias, pesquisar memórias olfativas e apreciar o que o copo nos oferece.

Mas não há nada como boa companhia.
Poesia romântica, ou mesmo erótica, tem outro efeito quando acompanhados (as) por alguém de quem se gosta. Ou de quem se pretende que venha a gostar de nós. Com um copo de vinho há toda a probabilidade de resultar ainda melhor.
Da mesma forma que abrir uma garrafa para degustar com um grupo de amigos é um prazer de que todos gostamos. E neste tipo de confraternização é grande a possibilidade de surgirem alguns poetas espontâneos.

O que é bom vinho? O que é boa poesia?
António Aleixo é bom? Certamente que sim para quem gosta de rimas, de crítica social, de alusões à vida real, ao popular. Já para quem gosta do movimento surrealista português, bom é Alexandre O’Neil. Para outros ainda, a universalidade de Fernando Pessoa define o que é a boa poesia.
Também no vinho há quem goste mais de uma ou outra região. E em cada região, das castas que melhor identificam o ‘terroir’, da marca que já correspondeu ao que procurávamos, do fornecedor cujas ‘edições’ reconhecemos como mais garantidas.

Robert Louis Stevenson escreveu que “Um bom vinho é poesia engarrafada”. Mas o ‘bom´ também depende das circunstâncias.
Em determinadas alturas da nossa vida há poemas que nos ajudam. Que nos transmitem as palavras certas para aquele momento e nos ‘revigoram’. Ou, pelo contrário, que nos aumentam a tristeza, nos provocam revolta, ou nos fazem aumentar a dor.
Também o nosso estado de espírito determina a forma como ‘degustamos’ uma bebida, ou um poema.
Um poema ‘doce’ acalma-nos. Uma bebida doce também.
Vinho e poesia são um desafio. Há que procurar o que é mais ‘certo’ para cada momento da nossa vida.

No fundo, como escreveu Luís Fernando Veríssimo:

Beba vinho para o espírito,
beba vinho para a boa digestão,
beba vinho na festa,
beba vinho na solidão

Beba vinho por cultura
ou por educação.
Beba vinho porque…
Bem, você encontrará uma razão

Amilcar Malhó