//Vinho da Madeira ameaçado
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Vinho da Madeira ameaçado

O vinho da Madeira, vinho dos imperadores, dos reis e dos escritores encontra-se hoje ameaçado.

Servido à mesa de czares e nobres russos, cantado por poetas e escritores, a “bebida mais civilizada do mundo”, diz Francisco Albuquerque, “está em risco”.  O madeirense, enólogo de renome internacional, académico reputado, não esconde a sua grande preocupação: “Neste momento estamos a atravessar um período muito preocupante. Temos uma enorme pressão demográfica sobre os terrenos agrícolas. Há muita gente a investir em casas de férias, sobretudo gente com os visas gold, que chegam aqui e compram terrenos por valores incríveis. Está a perder-se terreno de vinha”, alertou.

“A concorrência desleal é também um problema social difícil de resolver. Estão a vender-se terrenos com vinha a meio milhão de euros. E quem sou eu para chegar a um agricultor e pedir-lhe que não venda, que continue a produzir uvas. Chega lá um estrangeiro e bate-lhe 500 mil, 600 mil, 700 mil euros.”, continuou o enólogo, acrescentando ainda: “se a valorização louca e os valores incríveis oferecidos por estrangeiros são difíceis de travar, mais complicado, até porque são de cá, é a valorização dos terrenos com a volta dos emigrantes, que começaram a ocupar aqueles terrenos que tinham deixado em procuração. E começam a construir no meio das vinhas. As casas vão crescendo no meio das vinhas como cogumelos. A pressão urbanística é enorme”.

Francisco Albuquerque explica que “aos estrangeiros regressos e hotéis junta-se também a concorrência da banana, que é muito rentável e, ao ocupar terrenos, tem empurrado a vinha para cotas cada vez mais altas. Tínhamos muita vinha ao nível do mar. Neste momento ao nível do mar só há hotéis. Tínhamos depois a cota dos 200 metros, mas agora é só bananeiras, sobretudo na costa sul. Ficámos com a costa norte, mas até essa está a ser assediada.”

Quando questionado sobre a gravidade da situação, Francisco Albuquerque não hesita na resposta: “Está a colocar-se em causa o vinho da Madeira. O vinho da Madeira está em risco, está ameaçado.”

Segundo o mesmo, estas mudanças “podem causar diferenças na qualidade do vinho. Temos que ir à procura de novos porta-enxertos, adaptar as vinhas a esses climas porque a Madeira tem sete microclimas. Se formos para o Norte, são logo menos 3 graus. E nós temos vinhas, o Cerceal [uma das castas principais], por exemplo, que está plantado a 850 metros, no meio da Floresta Laurissilva. Estou muito preocupado. De ano para ano piora”.

Francisco Albuquerque sublinhou o facto de a plantação das castas nos lugares certos ser um dos “segredos da fabricação do vinho da Madeira, porque cada casta tem o seu microclima específico”.

“Há castas que só produzem, por exemplo, na Calheta, mas a Calheta é uma zona de excelência turística e os preços dos terrenos são quase ao preço dos do Funchal. E aqui a Boal está ameaçada, aquela uva não cresce noutras partes da ilha. Rapidamente vamos ter que fazer alguns parques agrícolas para salvaguardar”, sublinhou.

Para dar uma ideia bem precisa da situação, o enólogo explica que “a dimensão e repartição dos terrenos de vinha, que para os turistas é beleza, é um problema que agora se torna evidente para quem produz vinho. Existem mais de cinco mil parcelas, em média cada viticultor, e são dois mil aqui na Madeira, tem 0,2 hectares. É como se cada um tivesse dois campos de ténis com vinha, o que torna ainda mais difícil de gerir. Eu para comprar um milhão de quilos tenho de falar com 300 e tal viticultores.”

“Não entro em pânico, mas estou e tenho que estar preocupado. Só um louco não estaria. É que de um momento para o outro estas coisas desaparecem em economias muito frágeis. O vime é um bom exemplo. No primeiro dia em que importaram o vime chinês acabou o vime da Madeira. E era uma coisa muito rentável. E o mesmo aconteceu com o bordado”, desabafou.

Para Francisco Albuquerque “só fazendo planos diretores municipais muitos específicos é que se pode salvaguardar a vinha”, e acrescenta: “a explicação é simples: dão valores incríveis por terrenos que não valiam nada ou valiam muito pouco.”

“No dia em que quase não tivermos uvas, das duas uma: ou há subsídios ou vendem-se os vinhos a tal preço que se podem pagar as uvas a um preço incrível e então, aí, a agricultura torna-se aliciante.”, rematou o enólogo.

“Eu sou muito a favor dos subsídios, sobretudo numa região tão desfavorecida como a nossa. Há quem tenha complexos com os subsídios, são os chamados românticos. Acham que podemos entrar em economias de escala numa terra do nosso tamanho. Gente louca!”, concluiu.

Quando questionado se o estado e o governo regional devessem intervir antes que seja tarde, a resposta foi imediata: “Sim.”