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Vinho açoriano regressa ao mercado em versão Premium

Para apenas 863 garrafas, a 490 euros a unidade, há já uma lista de espera mundial.

Vinho da ilha do Pico ‘Czar’, servido à mesa de Papas, Imperadores e Czares, cobiçado pelos homens mais ricos do mundo, foi alvo de um novo lançamento de apenas 863 garrafas, a 490 euros a unidade, havendo já uma lista de espera mundial.

O Vinho Czar 2013 tem vindo a conquistar vários prémios e medalhas, incluindo uma de ouro na Feira Internacional de Moscovo em 2011, entre 5000 submetidos a concurso. Essa conquista fez aumentar o valor de mercado do vinho e alimentou no produtor a convicção de que realmente o ‘Czar’ tinha grandes possibilidades de se tornar um produto premium. 

Fortunato Garcia, da Adega Czar, que produz o vinho a partir de castas antigas, na zona da Criação Velha, na ilha do Pico, nos Açores, referiu que o novo lançamento, Single Harvest Reserve 2013 é destinado ao mercado ‘premium’. No seu segundo lote de 2013, o primeiro foi para apreciação de jornalistas e críticos, contém parte do primeiro lote, adicionado de uma barrica que ficou mais dois anos a envelhecer, o que lhe “deu mais riqueza e complexidade”.

“A cereja em cima do bolo foi adicionar um garrafão do último Czar do século XX (1999)”, declarou à agência Lusa Fortunato Garcia, que explicou que no universo de 630 litros foram adicionados cinco litros de 1999. Segundo o produtor “O Single Harvest Reserve 2013 traz uma nova imagem do Czar, num vidro fino, com estampagem em ouro, onde a rolha da garrafa, apesar de ser cortiça, possui uma percentagem em vidro e basalto para simbolizar o local onde as vinhas do Pico nascem e crescem”.

Fortunato Garcia diz que, para além de haver uma lista de espera mundial, tem resistido à tentação de vender várias garrafas a um único consumidor, dado o baixo número de exemplares e visando assim “atingir os quatro cantos do mundo” através da diversificação das vendas. Segundo o mesmo, existem compradores de vários países do leste e norte da Europa (Ucrânia, Rússia e Bielórrusia), a par de Angola, Estados Unidos da América, Canadá, Brasil, para além do continente e Açores.

O que faz do Czar um vinho especial é, de acordo com o seu produtor, o facto de “resultar de vinhas velhas que foram plantadas em 1872, plantas com quase 150 anos”. “Não são todas, porque são replantadas, mas a média das vinhas é de 60 a 80 anos”, refere, sendo a sua produtividade “extremamente reduzida, o que gera diferença em termos de concentração de nutrientes”. O produtor refere que “faz-se sempre uma colheita bastante tardia, sendo que a maior parte das uvas são passas autênticas”, apontando que “nada é adicionado” ao produto final, havendo um equilíbrio natural de acidez, açúcar e álcool.

Durante cinco anos da atual década o vinho Czar não surgiu no mercado, sendo que nos anos em que o produto é lançado não são excedidas as mil garrafas. Fortunato Garcia refere que isto “nunca foi visto como um negócio, mas sempre na expetativa de um dia lá chegar, atingindo os mercados ‘premium’ de vinho, em que existem muito poucos vinhos no mundo”.

O Czar, considerado o primeiro vinho conhecido no mundo por atingir naturalmente, sem adição de álcool, açúcar ou leveduras, 18% ou mais de graduação, é gerado a partir das castas autóctones do Pico. É produzido desde a década de 60 e engarrafado desde os anos 70, com a marca Czar, em referência ao facto de, após a revolução russa, em 1917, terem sido encontrados vinhos licorosos do Pico nas caves do palácio de Nicolau II. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já recebeu uma garrafa de vinho licoroso Czar, de um lote de 75, “único no mundo” que atingiu “uma graduação de 20,1% de álcool de forma natural sem a adição de uma gota de aguardente”.

 

O Vinho do Pico: Do Atlântico para o Mundo

Os vinhos dos Açores, de forma particular os brancos produzidos na ilha do Pico, têm vindo a ganhar notoriedade no mercado, sendo a paisagem da vinha da ‘ilha montanha’ considerada património da humanidade. O vinho Verdelho produzido no Pico, que respeita as técnicas e tradições seculares, faz parte da história dos vinhos do Mundo.

Além de ter chegado às Índias Orientais, Nova Inglaterra e Terra Nova, e de ter sido exportado como vinho da Madeira, foi também servido à mesa dos Czares da Rússia, que enviavam propositadamente os seus barcos aos Açores para carregar o vinho com destino aos banquetes reais. 

No decorrer dos anos 20 do século passado, existem registos de terem sido exportados para a Rússia 23.250 litros de vinho passado, para o porto de São Petersburgo, onde se encontrava a corte mais rica do mundo na época. O gosto pelo vinho do Pico foi confirmado após a Revolução Bolchevique quando foram encontradas garrafas de vinho do Pico nas caves do Palácio de Inverno. O vinho do Pico também chegou à mesa dos Papas e em 1797, num documento enviado pelo Vaticano, surge na lista de vinhos servidos num banquete oferecido ao Grão-Mestre dos Cavaleiros de Malta. Além disso, chegou a constar de receitas médicas como cura para certas maleitas.

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