//Um copo de vinho antes de morrer

Um copo de vinho antes de morrer

Um desabafo (relato) pessoal e uma notícia sobre ‘o prazer de beber um copo de vinho’.

Este foi um ano em que alguns dos mais velhos dos nossos queridos familiares e amigos não resistiram aos efeitos, diretos e indiretos, da malvada pandemia.
Não houve tempo nem condições, quer para os ‘acompanhar’, nem que fosse com o olhar nos derradeiros momentos, quer para as ‘despedidas’.

Dei comigo a pensar num telefonema que recebi de um amigo, através do qual fiquei a saber do falecimento de alguém que havia conhecido numa tertúlia gastronómica no centro interior de Portugal. Há ocasiões em que, na mesa, basta uma única vez para sentirmos a tal ‘empatia’. Foi o que aconteceu.
O mensageiro da (má) notícia revelou-me que o ‘militante da mesa’ agora falecido, sempre foi um gastro-enófilo moderado mas exigente no vinho que bebia e que, poucos dias antes de ser hospitalizado lançou uma daquelas ‘bocas’ para o ar: “descansa que não hei-de morrer sem beber um copo de vinho, em homenagem às nossas patuscadas”.

A voz ao telefone desabafou: “se não fosse esta merda do covid, juro que tinha escondido nem que fosse um frasquinho com um dos vinhos que ele mais gostava e tinha ido lá para lhe dar este último prazer”.
Este telefonema trouxe-me à memória uma notícia publicada aqui no ‘Jornal dos Sabores’ em 2017. Reli-a, emocionei-me ainda mais e apeteceu-me terminar este ano filho da p+++ partilhando convosco o que considero um autêntico ato de amor.
Amilcar Malhó

 

 

O Hospital Universitário de Aarhus, na Dinamarca quebrou o protocolo para realizar o último desejo de Carsten Flemming Hansen, de 75 anos, paciente em situação terminal.

Com um aneurisma na aorta e hemorragia interna, Carsten Flemming Hansen, de 75 anos, estava internado no Hospital Universitário de Aarhus, na Dinamarca, e poderia morrer em dias ou horas. O doente pediu que lhe concedessem o prazer de, antes de morrer, fumar um cigarro e beber uma taça de vinho branco gelado, enquanto observava o pôr do Sol.

Como o fumo é proibido, as enfermeiras que o tratavam desafiaram as normas da instituição e levaram a cama em que o doente se encontrava para uma varanda onde Carsten realizou o seu último desejo.
“Era o fim que ele queria. Não houve tempo para pensar, era apenas comprar o que ele pedia”, declarou Inge Pia Christensen, diretora de enfermagem no Aarhus, em entrevista à imprensa local.

O facto ficou registado na página do hospital no Facebook no dia em que Hansen faleceu, e registou em poucas horas mais de 70 mil ‘gostos’ e quase 5 mil partilhas. De acordo com as enfermeiras, a família concordou que numa situação como esta, os últimos desejos eram mais importantes que qualquer tipo de tratamento.

Foto de capa: umhomemzangado.com
Foto do doente: Hospital Universitário de Aarhus.