//A ‘tortura’ da maçã riscadinha

A ‘tortura’ da maçã riscadinha

Uma história ‘africana’ com este fruto da região de Palmela como protagonista.

Estávamos em finais do século passado e numa de algumas viagens bianuais a Maputo (Moçambique), conheci um casal de portugueses, saídos de Lisboa há cinco anos e que ainda não haviam tido oportunidade de regressar a Portugal, devido a compromissos profissionais do elemento masculino do casal.
Quando souberam a minha naturalidade – Quinta do Anjo, no concelho de Palmela – logo falaram das saudades que tinham… da maçã riscadinha, que haviam conhecido numa ida às Festas das Vindimas, realizada anualmente em finais de agosto na vila de Palmela. Confesso que fiquei surpreso pois esperava uma alusão aos vinhos ou ao queijo de Azeitão, maioritariamente produzido na minha freguesia de nascimento.
Perante o entusiasmo das ‘memórias’ do fruto, sem nada adiantar decidi, na viagem seguinte, em início de agosto, levar-lhes um saco de pano confecionado pela minha mãe, com oito maçãs ‘escolhidas a dedo’. No dia seguinte à chegada, telefonei-lhes e disse que precisava encontrar-me com eles ainda no mesmo dia, temendo que se perdesse o fantástico aroma que se libertara quando abri a mala.
Convidado a jantar em casa dos recentes amigos, logo que cheguei fiz a surpresa de lhes entregar as maçãs riscadinhas. A reação foi entusiasticamente superior ao esperado, mas a melhor surpresa viria no final dos belíssimos camarões tigre servidos ao jantar.
Quase terminado o repasto, em tempo de sobremesa, o anfitrião exclamou: “Amílcar, repare no perfume da sua terra que estas maçãs trouxeram a esta casa”. E de seguida pediu à esposa que estava junto da fruteira: “Podes passar-nos umas maçãs para sobremesa por favor?”. A resposta foi imediata: “Nem penses, enquanto elas deitarem este perfume, ninguém as come!”.
– “A isto chamo eu, a tortura da maçã riscadinha” exclamou virando-se para mim, o desiludido dono da casa.
Só quem conhece estas maçãs, sobretudo quando as deixam amadurecer ‘no ponto’, pode perceber a sensação de sentir este perfume que me transporta aos campos onde entre as cepas a vindimar, encontrava alguns destes frutos devidamente maturados e por isso com as riscas vermelhas que a caraterizam.
Para quem não conhece nada como provar, mas entretanto, fiquem com alguma informação sobre a:

‘Maçã Riscadinha de Palmela DOP’

A Comissão Europeia aprovou a atribuição de Denominação de Origem Protegida (DOP) à Maçã Riscadinha de Palmela em 2013.
Palmela é conhecida como o solar deste fruto que beneficia do microclima resultante da proximidade do oceano atlântico, dos rios Tejo e Sado e da orografia da Serra da Arrábida.
A Maçã Riscadinha distingue-se pela sua forma achatada irregular, a presença de riscas vermelhas sobre uma epiderme de cor verde-amarelada com os frutos produzidos dentro da área geográfica delimitada a apresentarem riscas mais intensas. A polpa da Maçã Riscadinha de Palmela é esverdeada, doce e acidulada, muito sucosa e aromática; por vezes apresenta manchas translúcidas (e nesse caso diz-se «azeitada»), característica menos frequente nos frutos obtidos noutras regiões.
A área geográfica delimitada da produção está, do ponto de vista administrativo, naturalmente circunscrita às freguesias de Canha, Santo Isidro de Pegões, do concelho de Montijo, às freguesias de Marateca, Palmela, Pinhal Novo, Poceirão e Quinta do Anjo, do concelho de Palmela, bem como às freguesias de Gâmbia-Pontes e Alto da Guerra e S. Sebastião, do concelho de Setúbal.
A variedade de macieira Riscadinha terá surgido no século XIX, no lugar de Barris, concelho de Palmela. A partir dos anos 20, do século passado, com o corte dos matos, a cultura da vinha em consociação com macieira expandiu-se para a zona do Lau e Algeruz, o que também levou a um aumento da produção de Maçã Riscadinha de Palmela

In: Produtos Tradicionais Portugueses (dgadr)

Amílcar Malhó