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Torres Vedras – Uvada

A Uvada é um doce muito especial, rico em história, tradição e sabor. É confecionado sem açúcar, preparado apenas com o mosto de uva, ao qual se junta fruta em pedaços, mais frequentemente maçãs e canela.

A uvada é produzida em grandes quantidades no Outono, em época de vindima. O mosto é bem fervido, durante várias horas dando origem ao arrobe, adiciona-se a fruta e, num processo lento, acompanha-se a cozedura até atingir a cor castanha escura e o “ponto estrada” for conseguido, sinal de que o doce está no seu ponto perfeito. Este doce é consumido no pão, em tostas ou bolachas neutras ou com frutos secos. Existem também já algumas aplicações deste doce na culinária e na pastelaria dando origem a combinações bem interessantes e saborosas.

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Um pouco de história

Existem descrições e registos da fervura do mosto em receitas da antiguidade clássica e época Medieval. Por todo o mundo, em zonas onde o cultivo da vinha e do vinho têm grande expressão, a redução do mosto, com várias aplicações do produto, é prática comum. Antigamente usavam-se uvas de vindimas próprias ou dos “rabiscos” (cachos que ficavam nas cepas). O principal objetivo era obter o mosto fresco, sem fermentação. O tipo de casta variava conforme a disponibilidade, tal como as maçãs.

Em Torres Vedras, o pero “focinho de coelho”, o pero “ferro” e a maçã “azeda” eram as mais utilizadas. Hoje em dia, escolhe-se a maçã e, por serem raros os frutos de outrora, utilizam-se maioritariamente as maçãs Bravo Esmolfe, Fuji, Reineta e Royal Gala. A Uvada contém na sua origem uma riqueza imensa, advinda de momentos de carência vividos noutros tempos… usar o que terra dá, aproveitando os recursos disponíveis e minimizando desperdício. Surge assim um doce único que na sua essência apresenta personalidades diferentes consoante a mão de quem lhe dá vida.

Harmonização

Para saborear este produto gastronómico tão peculiar, aconselhamos um vinho licoroso, como o Biqueirão de Torres Vedras. Um vinho elaborado a partir das castas Aragonez e Castelão, que resgata o paladar dos frutos secos, o aveludado do mel e leve toque acídulo da fruta. Esta harmonização pode ser saboreada como aperitivo ou como sobremesa.

‘Memória de Sabores’ – Homenagem

Maria da Conceição Gomes é dos nomes mais reconhecidos na arte de saber fazer esta receita tão tradicional. Aprendeu a receita em pequena com a mãe. Ia ao “rabisco” e tem na memória a junção de abóbora ao arrobe em vez da maçã. Começou a trabalhar cedo e deixou de se dedicar à confeção da uvada, mas quando se casou, resgatou a receita e voltou a mexer no tacho, aproveitando o facto de ter vinhas suas e poder facilmente colher as uvas para o mosto.

Hoje, nos Doces da Ribeira, usa mosto de várias castas, sobretudo Santarém e dá preferência às maçãs Fuji, Reineta e Bravo Esmolfe. Foi das primeiras pessoas a levar a Uvada para as Festas da Cidade, acabando por gerar bastante sucesso e dando a merecida visibilidade a este produto tão peculiar e apreciado.

 

(Conteúdos produzidos pelo município de Torres Vedras, para ‘Harmonizações, histórias e Memórias’, aquando da comemoração dos ‘21 Anos da Gastronomia Património Cultural’, promovida pela AMPV – Associação de Municípios Portugueses do Vinho)