//Se não podes ir…’manda vir’

Se não podes ir…’manda vir’

Quando o cliente não pode (ou não quer) deslocar-se, receber a refeição pode ser (é) a solução.

Sobretudo aos fim de semana, para além da falta do abraço de alguns familiares e dos amigos, ‘bate’ aquela saudade do(s) restaurante(s) onde ‘descomprimíamos’ através do prazer da mesa e de quem nela nos acompanhava. Estes, os convivas, ficam em ‘suspenso’, por nós e por eles. Mas do prazer da mesa, embora de forma diferente, podemos continuar a usufruir.
Uma parte significativa dos restaurantes fornece refeições através do ‘take away’. Mas quando o cliente não pode ou não quer deslocar-se, receber a refeição pode ser a solução. A solução para o cliente, note-se. Porque para o empresário, talvez nem tanto.
É o que se percebe numa recente ‘conversa digital’ que ‘apanhei’ no facebook. Sim, as redes sociais podem ser úteis, dependendo de quem e como as usa.

Refiro-me a um post publicado na página de facebook do Chefe Joe Best (Joe, desculpa mas para mim é com ‘e’) relacionado com as elevadíssimas taxas e comissões praticadas pela Uber Easts e a Glovo, as duas plataformas mais usadas em Lisboa e outras grandes cidades.
O Chefe Joe Best alerta para o prejuízo que estes custos representam no já magro orçamento de quem continua a conseguir trabalhar, considerando mesmo que “estamos a pagar para trabalhar, e a pagar mais do que o lucro que temos” pelo que “esta cartelização está a matar o sector, por estarmos reféns deste sistema de entregas ao domicílio e que isoladamente cada um de nós, nada pode fazer para que seja alterado”.
Pelo que percebi nos comentários a esta publicação, as referidas plataformas cobram ao restaurante 30% do valor da encomenda e ainda uma taxa mensal ou semanal. Se a estes valores acrescentarmos o que pagam os clientes e o reduzido valor ganho pelos entregadores, é fácil perceber o grande negócio para as plataformas.
E se estas têm, obviamente, o direito a ganhar, os restaurantes têm o direito (dever) de encontrar alternativas a esta situação, com os participantes da ‘conversa’ online a apresentar sugestões e até a revelar interessantes novidades, como é o caso da criação de uma associação de restaurantes, em Famalicão, com o objetivo de criar uma plataforma para substituir as ‘glutonas’.
Em Matosinhos a Câmara Municipal promove a entrega de comida ao domicilio, nos fins de semana em que os restaurantes fecham às 13 horas, através de acordo com os taxistas. E em Espinho a Confraria Gastronómica reúne os seus confrades ao fim de semana e colabora com os restaurantes fazendo entregas ao domicílio. Em Lisboa o Restaurante D’Bacalhau tem 4 viaturas a fazer entregas próprias e há outros exemplos de empresários que encontraram soluções idênticas.

São apenas alguns exemplos do que se passa nesta luta pela manutenção das unidades de negócio e consequentemente, os postos de trabalho.
Cabe-nos a nós, clientes, através da compra em take away, recebendo em nossa casa ou insistindo em ir ao restaurante, contribuir para que, quando for possível voltar a usufruir deste prazer ‘tão nosso’, eles ainda lá estejam, para nos receber.

Mas há uma importante parte do ‘melhor futuro’ que cabe aos próprios. Esperemos que esta dolorosa experiência leve os profissionais da área da restauração (empresários, cozinheiros, pessoal de sala…e fornecedores) a refletir e discutir sobre o que poderá e deverá acontecer (melhorar) quando (os que lá chegarem) ultrapassarmos tudo isto.
Até lá, reconhecendo o custo suplementar de nos enviarem a comida a casa, não nos privemos de receber as refeições dos nossos restaurantes preferidos. E não apenas porque eles merecem, mas também porque nós (clientes) merecemos.

E se não pudermos, ou não quisermos ir, pratiquemos o nosso desporto preferido: ‘mandar vir’.

Amilcar Malhó

Fotos interior:
1 – Armazém Central – Minas do Lousal (Grândola)
2 – Restaurante Torres – Vila Verde (Braga)