//Rosa Maria e ‘os caroços que dão frutos’
Rosa Maria

Rosa Maria e ‘os caroços que dão frutos’

Rosa Maria vive na cidade, mas a sua forte ligação à terra desde muito nova levou-a a adquiri uma quinta perto de Santarém onde cultiva tudo quanto pode com muito amor e carinho. Na semana passada os seus abacates foram produto cabeça de cabaz dos cabazes de frescos do SmartFarmer, negócio social da ONG Oikos – Cooperação e Desenvolvimento.

Para conhecer melhor a sua história, estivemos à conversa com Rosa, que respondeu desta forma às nossas questões:

 

1)  Viveu a maior parte da sua vida na cidade, o que a motivou a criar a sua própria quinta?

Desde pequena que vivi num espaço aberto em contacto com a terra porque vivia com os meus pais em África onde tínhamos esse contacto. Procurei durante imenso tempo um sítio onde pudesse semear e ver crescer as coisas que colocava na terra porque sempre foi algo que me deu muito prazer. Visitei diversos espaços até que um dia me disseram que havia uma quinta que estava abandonada há 30 anos perto de Santarém. Quando cheguei à quinta só havia paredes e telhados, a família que ali morou antes criava bois e vacas. Eu moro em Lisboa porque a minha atividade profissional sempre foi em Lisboa, mas sempre que podia ia lá ver a quinta, consegui negociar um preço e finalmente adquirir a quinta. Faz agora 15 anos.

 

2) Além de abacate, que outro produto cultiva?

Os frutos que lá tenho são todos nascidos de caroços: tenho pêssegos vermelhos e amarelos, goiaba, alperces, nozes, kumquats e tomate japonês, que nós conhecemos por tamarilho. Tenho também laranjas por todo o lado, limões e limas. Semeei tudo aquilo que consegui nestes anos, tudo o que tem caroço e é bom eu vou logo colocar na terra. Neste momento tenho uma árvore de manga que está com um metro e setenta, que também nasceu através de um caroço. Está muito bonita, ainda não deu frutos, mas estou muito orgulhosa dela. Também tenho cebolas, cabeças de alho e batata. O ano passado foi o primeiro ano que comecei a semear batata e para não me cansar muito arranjei um banquinho, botas, luvas um avental de plástico e coloquei mãos a obra! O resultado forma umas batatas muito gostosas e saborosas.

Por fim tenho muita uva, que é chamada a uva pera, que por acaso é uma uva que se perdeu naquela região, mas que na minha quinta cresceu muito. Contudo é uma uva que atrai imensas abelhas porque é muito doce e então um produtor da região deu-me uma série de pés de um outro tipo de uva biológica que não leva tratamento nenhum e, portanto, este ano tive imensa uva biológica.

 

3) Considera importante cultivar os seus próprios alimentos?

Sim, é muito importante, se eu hoje em dia vivesse num apartamento com uma varanda, uma das primeiras coisas que eu faria seria colocar vasoso para poder semear alguns frutos e legumes porque isso é possível. O tomate cereja, por exemplo, pode perfeitamente ser semeado num vaso numa varanda.

4) Como é ter uma própria horta e cuidar dela, implica muitos cuidados?

Sim, é necessário um rigoroso acompanhamento porque eu não vivo lá e então sempre que posso pego no carro e lá vou eu. Quando não consigo ir à quinta fico sempre preocupada. Gosto muito de lá estar porque consigo ver as estrelas e aqui na cidade não as consigo ver e há sempre muito barulho. Ao redor da quinta estou rodeada por um ambiente muito bonito: as pessoas que vendem o pão, o peixe e a fruta entram com uma carrinha na povoação a apitar e eu já sei quando é o dia do pão, quando é o dia do peixe.

Em Lisboa, guardo tudo o que é cascas de cenoura, cebola para levar para a quinta, quando chego lá enterro e tapo muito bem porque na zona da quinta há muito coelho bravo e se eu não tapar bem ele vai lá comer a minha compostagem.

 

5) Conte-nos um pouco a história dos abacates que foram ‘cabeça de cabaz’ desta semana. Em que altura foram plantados e porquê?

Nasceram a partir de um caroço de um abacate que eu comi e do qual gostei muito e então resolvi semeá-lo. Eu tenho um certo jeito para estas coisas porque quando vivi em África aprendi muito com os africanos. A árvore cresceu imenso. Coloquei num vaso na cozinha aqui em Lisboa.  Quando já estava com altura suficiente transportei-o daqui para a quinta. Este foi um ano atípico porque eu nunca tive abacate nesta altura do ano, tinha sempre em setembro, outubro e novembro. E este ano estava a ver que não tinha porque não tem havido água e a água da chuva é sempre diferente não é… apesar da água do poço ser natural…, mas vingou e eu fiquei muito contente.

Tive muito abacate este ano também, ofereci algum e ensinei os meus amigos a comer abacate. Como o abacate é uma fruta sem sabor adocicado, os meus pais ensinaram-me a tirar a polpa com uma colher esmaga-lo num prato, regar com limão ou lima e a gosto colocar uma colher de açúcar envolvendo tudo.

No Verão comer o abacate fresquinho desta forma é uma maravilha!

 

Esta conversa teve lugar em fevereiro de 2022 no seguimento da inclusão dos abacates de Rosa no cabaz de frescos do SmartFarmer, negócio social da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, cuja missão é valorizar o consumo de proximidade e dar a conhecer pequenos e médios produtores nacionais, ajudando-os a vender mais e melhor. Todas as semanas os cabazes de frescos do SmartFarmer incluem um produto regional designado ‘cabeça de cabaz’.

Para conhecer e aderir ao cabaz ‘frescos da semana’, conheça aqui a composição e outras informações:

https://smartfarmer.pt/produto/cabaz-frescos-da-semana/