//Vinho IV: Poesia e vinho

Vinho IV: Poesia e vinho

Em ambas as ‘áreas’, há quem diga que não gosta, mesmo sem saber porquê.

Também há quem diga que gosta muito, apenas porque fica bem. No caso da poesia porque dá uma imagem de intelectualidade, no caso do vinho, de modernidade, porque o vinho está na moda.

No sentido figurado, talvez se possa dizer que poesia é tudo aquilo que comove, que sensibiliza e desperta sentimentos. Quando lemos ou ouvimos um poema, esperamos que nos surpreenda, que nos toque, que fique, no todo ou em parte, na nossa memória.

Quando começamos a entender a beleza de apreciar um vinho, também esperamos um aroma que nos surpreenda, uma cor que nos crie expetativa para um sabor que fique, se mantenha por algum tempo ou mesmo que entre no arquivo das boas memórias.

A poesia em verso é muito mais acessível que a poesia em prosa que é apreciada, normalmente, por quem já leu e apreciou muita literatura deste género e mais facilmente apreende a mensagem e o pensamento do autor.
Também nos vinhos existem aqueles que são mais acessíveis, que simplesmente agradam ou não. E outros que se definem como mais complexos, que exigem uma maior capacidade de perceção dos aromas e requerem toda a ‘atenção’ das papilas gustativas.

Fernando Pessoa terá escrito: “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só”.
Também ler poesia pode ser um prazer solitário. O silêncio, normalmente, permite melhor concentração.
Igualmente beber vinho, pode ser um prazer solitário. O silêncio permite melhor concentração, maior capacidade de arrumar ideias e apreciar o que o copo nos oferece.

Mas não há nada como boa companhia.
Poesia romântica, ou mesmo erótica, tem outro efeito quando acompanhados (as) por alguém de quem se gosta. Ou de quem se pretende que venha a gostar de nós. Com um copo de vinho há toda a probabilidade de resultar ainda melhor.
Da mesma forma que abrir uma garrafa para degustar com um grupo de amigos é um prazer de que todos gostamos. E neste tipo de confraternização é grande a possibilidade de surgirem alguns poetas improvisados.

O que é bom vinho? O que é boa poesia?
António Aleixo é bom? Certamente que sim para quem gosta de rimas, de crítica, de alusões à vida real, ao popular. Já para quem gosta do movimento surrealista português, bom é Alexandre O’Neil. Para outros ainda, a universalidade de Fernando Pessoa define o que é a boa poesia.

Também no vinho há quem goste mais de uma ou outra região. E em cada região, de uma ou outra marca, deste ou daquele fornecedor. E quando gostamos, geralmente dizemos que é bom.

Robert Louis Stevenson escreveu que “Um bom vinho é poesia engarrafada”. Mas o bom também depende das circunstâncias.

Em determinadas alturas da nossa vida há poemas que nos ajudam. Que nos transmitem as palavras certas para aquele momento. Ou, pelo contrário, que nos aumentam a revolta, que fazem aumentar a dor.
Também o nosso estado de espírito determina a forma como ‘degustamos’ uma bebida, ou um poema.
Um poema ‘doce’ acalma-nos. Uma bebida doce também. Uma combinação que faz ainda mais sentido nestes tempos de quarentena que atualmente vivemos.

A terminar, poesia de Luís Fernando Veríssimo:
Beba vinho para o espírito,
beba vinho para a boa digestão,
beba vinho na festa,
beba vinho na solidão (…)

Amilcar Malhó