//Os restos e as sobras
os restos e as sobras

Os restos e as sobras

Não comer tudo o que vem para a mesa pode dar direito a um castigo, ou a um convite.

De repente veio-me à memória a ameaça da minha mãe “não te levantas da mesa enquanto não comeres tudo” ou então “se não comes, ainda levas um tabefe”. Havia nestas ameaças uma tentativa de sublinhar o quando era difícil garantir a comida diária na mesa.

Hoje tudo parece ser mais fácil e por isso se desperdiça tanta comida. Há, regra geral, pouco rigor na quantidade que se coloca no prato e, consequentemente, se o apetite é menor, o que sobra vai para o lixo.

Vem esta introdução a propósito de uma recente visita a um restaurante de onde trouxe o ‘resto’ do almoço. Bem, o resto ou a sobra? Na verdade tanto faz, embora a sobra pareça verbalmente menos ‘agressivo’.

Quanto ao episódio que posso considerar gastronómico porque fui com intenção de escolher e ter prazer a comer, aconteceu num restaurante simples, de beira de estrada mas com uma ementa que incluía algumas propostas tradicionais, nomeadamente alentejanas.

Ainda me senti tentado pelo jantarinho de grão ou os pezinhos de coentrada, mas acabei por não resistir à dobrada com feijão branco. Não, não é uma iguaria do Porto, mas abordaremos esse ‘assunto’ noutra ocasião.

os restos e as sobras

Perante a opção dose ou meia dose, optei pela segunda, por ser apenas para mim, mas acabei por deixar na travessa um terço do que foi servido. Ao levantar o prato a simpática empregada de mesa perguntou-me se queria levar o que sobrara e, antevendo um petisquinho ao final do dia, aceitei. Pouco depois, acondicionada numa embalagem que por sua vez foi colocada num saco de plástico, chegou a dose sobrante.

 

Ao ver circular pela sala quem me pareceu ser o proprietário, provoquei conversa e foi-me então explicado que o convite para “se não comer, levar o que sobra” é coisa que já se faz há muito tempo. E porquê? A resposta veio sem hesitação: “porque ia para o lixo e é muito mau desperdiçar a comida”.

A minha admiração não foi tanto para a possibilidade de ‘levar’ o que não foi consumido, que na verdade alguns restaurantes fazem, ainda que a própria embalagem represente um custo acrescido. O que me deixou muito satisfeito foi ouvir um homem que, pela aparência, deve andar pelos setenta e tal anos, a falar de desperdício, uma palavra que apenas muito lentamente vai ganhando importância, perante a gravidade dos números que se conhecem no mundo, mas também em Portugal.

A comida é de conforto, daquela que apelidamos de caseira e a preços económicos. É um restaurante de passagem, talvez com uma centena de lugares em duas salas, chama-se ‘Cruzamento’ e fica na saída da AE para Grândola, junto ao cruzamento, em direção a Alcácer do Sal.

Também é verdade que ainda existe alguma ‘incomodidade’ em ser o cliente a solicitar que acondicionem a comida sobrante, para levar.

E a propósito, recordo-me daquela anedota que conta:

No final da refeição, perante meio frango na travessa o marido diz que deveriam pedir para ‘embrulhar’ o que sobrara, ao que a esposa responde que isso seria uma vergonha.

Para atenuar o constrangimento, o homem lembra-se então de pedir que lhe coloquem o resto num saco para que possa alimentar os cães que tem em casa.

Solicito, o empregado faz o que lhe pediram e quando regressa com o saco na mão informa os clientes: “como é para os cãezinhos, fui buscar uns restos de outros pratos e acrescentei”.

Amilcar Malhó

 

Foto da sala: ondevamosjantar.com

Foto logotipo: comerbeberlazer.blogspot.com