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O Vinho na literatura

Se por um lado excita os desejos, por outro lado é o protagonista dos rituais sagrados. Ilumina a memória, mas também ajuda a esquecer, desperta o intelecto, mas pode desligar as nossas faculdades, guia as ações ou aprisiona-as num torpor profundo, facilita as relações sociais, mas também pode despertar a agressividade latente. 

Estamos a falar do vinho que no meio das suas contradições e ambiguidades, é também uma forma de arte a que artistas e escritores de todos os tempos se dedicaram. Começou por estar presente na literatura desde muito cedo e o mundo clássico ostenta um tesouro literário sobre o vinho, que, dos rituais ao puro prazer, nunca deixou de ser exaltado. Já a partir do século VII a.C., o vinho era a única bebida permitida a ser apreciada enquanto se recitam versos e monólogos, num contexto com um forte carácter sagrado. 

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Mas o vinho não está presente apenas na literatura clássica, a literatura romântica também é extremamente generosa com o vinho, a começar por Giacomo Leopardi, ensaísta, filólogo e um dos maiores expoentes da poesia italiana, que na sua obra ‘Zibaldone’, reconheceu o poder do vinho de aumentar a clareza da mente e libertar a imaginação, mas acima de tudo, de remover o homem da sua condição de infelicidade.

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Mas Leopardi não foi o único e Baudelaire, o poeta ‘maldito’ por excelência afirmava:  “De vinho, de poesia, ou de virtude”. Como queira, mas embebede-se”. Para o poeta, o vinho não era apenas uma bebida, mas um companheiro de viagem com uma alma. Também no seu livro ‘As Flores do Mal’, Baudelaire criou ‘O Vinho’, uma secção de cinco poemas em que o abandono do vinho é o remédio mais eficaz para escapar à atmosfera sombria de uma Paris opressiva.

Cada poema trata de um aspeto diferente, desde a alma do vinho consciente do seu poder consolador, à relação entre os moradores dos bairros de lata e o vinho, aos impulsos criminosos do assassino, à celebração dos amantes e da embriaguez. Beaudelaire foi um dos elogiadores mais convencidos do vinho e a ele junta-se Dostoievski que utilizou o vinho para criar cenas inesquecíveis como na sua obra ‘Os Demónios’, onde chega mesmo a mencionar uma ‘marca’ específica de vinho, o Château d’Yquem. 

Outra citação importante é feita ao Château Margaux pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway na sua obra ‘O sol também se levanta’ do final dos anos 1920. São, portanto, vários os autores e filósofos que dedicaram versos e aforismos ao néctar dos deuses e a ligação entre literatura, filosofia, arte e vinho não diminuiu, mesmo na era moderna, chegando até nós, despida de toda a sacralidade, mas mais controversa e problemática. 

Por outro lado, falar de vinho é entrar num confronto com a história e na natureza humana existe uma tensão inerente a uma transcendência que não é religiosa, mas carnal e terrena, na esperança de superar temporariamente as misérias da vida.

 

Adaptado de: https://revistaadega.uol.com.br