//O Torricado

O Torricado

O Torricado é uma refeição típica da zona dos valados do Tejo, à volta de Azambuja, Samora Correia ou Salvaterra de Magos

O Torricado é uma refeição típica da zona dos valados do Tejo, à volta de Azambuja, Samora Correia ou Salvaterra de Magos, no Ribatejo, consumida até meados do século passado por gente de fracos recursos económicos que tinha que se alimentar com o pouco que tinha à mão. Quando os jornaleiros passavam uma semana fora para trabalhar nos campos dos grandes lavradores ou dos seareiros da lezíria, nas campanhas da monda do arroz ou do tomate e na altura das vindimas, levavam um farnel à base de pão e de enchidos, com os quais faziam uma “bucha”. Com o pão já duro, esfregavam-no com alho, torravam-no em cima das brasas, nuns espetos de pau, barravam-no com azeite, salpicavam-no com sal e comiam-no com uma lasca de bacalhau ou com azeitonas. É, pois, um prato que surgiu da necessidade de os trabalhadores rurais se alimentarem com produtos que não se deteriorassem durante o período de tempo em que estivessem afastados de casa.

Redescoberto pelos apreciadores de petiscos, o Torricado, já afastada a conotação de comida de pobre, atualmente, é considerado uma das especialidades gastronómicas desta zona ribatejana, tendo-se tornado o protagonista de uma iniciativa anual no início de novembro, na vila de Azambuja, que pretende promover e divulgar a cozinha tradicional da região.

Ingredientes
Pão caseiro duro, alho, azeite, sal grosso, bacalhau, sardinha, entremeada ou febras.

Preparação
Escolhe-se um pão caseiro de cerca de meio quilo, já com alguns dias, que por dentro não tenha buracos. Abre-se o pão ao meio e, com a ponta de uma faca bem afiada, retalha-se o miolo profundamente, mas sem atingir a côdea, em losangos com, aproximada¬mente, a grossura de um dedo. Esfrega-se com um dente de alho esborrachado: para cada metade, meio dente de alho. Depois, sobre as brasas, colocam-se as duas metades do pão a “torriscar”, primeiro o lado da côdea, que deve ficar estaladiço mas não tosta¬do, depois o lado do miolo, que deve ficar louro. É o próprio pão que indica quando está bom, quando os sulcos começam a abrir ou, como diz o povo, quando o pão “está a rir” ou então a “abrir a boca pedindo o azeite”. Unta-se a côdea e rega-se o miolo com azeite; salpica-se com sal grosso. Põe-se de novo em cima do brazido, mas só do lado do miolo, até o azei¬te ferver ou, como se diz, até “chiar”. Nessa altura, está pronto a ser comido acompanhando as febras, a entremada, o bacalhau assado ou as sardinhas, também assadas, conforme o gosto.

Harmonização

Este é um prato muito rústico e, conforme o acom¬panhamento que escolheu – febras, entremada, bacalhau ou sardinhas – pode optar por um tinto ou um branco estruturados, em estágio em madeira, da Região Tejo.

 

Azambuja
Nas voltas da História, Azambuja começou por ser um lugar habitado por romanos que, em 711 da nossa era, foi tomado pelos sarracenos, a quem deve o topónimo que significa “oliveira brava”. Os cristãos acabaram por prevalecer quando D. Afonso Henriques, com os seus ímpetos conquistadores, subjugou os mouros da região em 1147. Desses tem¬pos remotos da reconquista até hoje, Azambuja foi prosperando. O concelho, predominantemente rural, mantém com o rio, que lhe impõe a fronteira a Sul, uma estreita relação. Várias comunidades piscatórias fixaram-se nas margens do Tejo. Algumas, vindas da costa Atlântica nos finais do Século XIX, construíram as curiosas casas palafitas que actualmente ainda se podem encontrar, aqui e ali, ao longo do curso do rio. Esta profunda ligação com a terra e com o Tejo re¬flecte-se na gastronomia tradicional, onde é visível a criatividade das suas gentes no aproveitamento dos recursos disponíveis. É daqui o queijo de Maçussa, o único chèvre produzido em Portugal de forma artesa¬nal, que conquista espaço, nomeadamente, entre os chamados produtos «gourmet».

IN: ´OS Sabores da Nossa Terra’ – Associação para a Promoção do Desenvolvimento Rural do Ribatejo

Veja também ‘A Festa do Torricado’
https://jornalsabores.com/a-festa-do-torricado/