//“Ó tia, dá Pão-por-Deus? Se o não tem Dê-lho Deus!”

“Ó tia, dá Pão-por-Deus? Se o não tem Dê-lho Deus!”

No dia de Todos os Santos (1 novembro) as crianças vão de porta em porta, a pedir o ‘Pão por Deus’.

Neste ano de 2020, a pandemia também nos vai privar desta tradição que, compreensivelmente é desaconselhada. Valha a verdade que já apenas em alguns territórios rurais ainda se mantém. Nas zonas urbanas – mas não só – a ‘americana’ festa do Hallloeen tem vindo a substituir a nossa tradição de andar com um saco de pano a pedir presentes.
Muitos dos exemplos que persistem devem-se ao trabalho de escolas ensino básico que incentivam os alunos a ir de porta em porta a pedir o ‘Pão por Deus’ para manter a tradição. Mas em tempos mais recuados, no dia de Todos os Santos, eram muitas as aldeias em que as crianças, ‘bem vestidinhas’, iam de saquinho de pano na mão para guardar as ofertas de bolos, broinhas, nozes, figos e amêndoas. E se muitas o faziam incentivados pelos professores e os pais apenas por ser uma tradição, ainda há poucos anos havia quem o fizesse para compensar a falta de alimentos em casa. E se pensarmos bem, infelizmente ainda hoje se justificaria não fosse as restrições que se impõem.

A saída das famílias do interior para as grandes cidades e a diminuição do número de crianças tem contribuído para que esta tradição esteja a desaparecer e a ser, de certa forma, substituída em Portugal desde há pouco mais de 20 anos pelo ‘Dia das Bruxas’, alimentado pelo negócio que proporciona, seja nas venda de fatos ou pelos doces que agora enchem os sacos dos que vão de porta em porta e gritam “doçura ou travessura”. E se não recebem doçuras, lá vão travessuras que em muitos casos constam de farinha ou ovos ‘atirados’ aos donos da casa.

O dia de Pão por Deus
Era neste dia que antigamente se repartia pão cozido pelos pobres que o iam pedir às portas para colmatar a pobreza. A tradição está ligada ao costume de oferecer alimentos aos defuntos. Quem pedia à porta era encarado como a alma do morto a errar pelo mundo e a pedir. O Pão de Deus é assim uma oferta às almas que partiram.
Este hábito ganhou força após o grande terramoto de 1755 que destruiu completamente parte da capital e zonas à volta, que aconteceu no dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos.

Além de se abrirem as portas e de se oferecer o que estava à mesa, os pobres ainda podiam levar algo para comer e em certos locais este dia é conhecido como o Dia dos Bolinhos.
Para chegarem a casa com bolos, bolachas, frutas, chocolates, frutos secos ou outros, as crianças deviam dizer uma espécie de oração aos moradores das casas. Há muitas lengalengas e ‘orações’, mas aqui ficam alguns exemplos:

“Ó tia, dá Pão-por-Deus?
Se o não tem Dê-lho Deus!”

“Bolinhos e bolinhos; Para mim e para vós
Para dar aos finados; Qu’estão mortos, enterrados”

À porta daquela cruz; Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro; Assentada num banquinho
Faz favor de s’alevantar; P´ra vir dar um tostãozinho.”

Foto de sacos para o pão por Deus: Secretaria Regional de Educação e Cultura dos Açores
e Alda Casqueira Fernandes (Youtube)

Fotos de sacos: Museu da Horta e C.M. São Roque do Pico