//Neve da Serra da Estrela para Lisboa

Neve da Serra da Estrela para Lisboa

Recriação do transporte de neve para, na capital do reino, se fazer sorvetes para a Corte.

No dia 6 de agosto, o varino ‘o Boa Viagem’ vai participar numa recriação histórica, relacionada com o carregamento da neve que vinha inicialmente da Serra da Estrela (1614), para a cidade de Lisboa, com vista a fazer sorvetes para a Corte. O transporte da neve era feito em carroças até ao Tejo e depois seguia em barcas até ao Terreiro do Paço, com toda a celeridade. Este trabalho iniciava-se no primeiro de maio e prolongava-se até ao último dia de setembro. A saída está marcada para as 12:00h, no Cais da Moita, com chegada prevista a Lisboa às 14:00h (Cais das Colunas).

A organização desta recriação ‘Dar neve a Lisboa’ foi iniciativa da Marinha do Tejo, com o apoio da Câmara Municipal da Moita, através da cedência da sua embarcação municipal, tipo varino ‘O Boa Viagem’ e a parceria, do Clube Escape Livre da cidade da Guarda.

A iniciativa começa no dia 5 de agosto, com a recolha e o transporte da neve da Serra da Estrela, em veículos de todo-o-terreno, pelos elementos do Clube Escape Livre, até à vila da Moita. No dia seguinte, 6 de agosto, a embarcação tradicional “O Boa Viagem” recebe a neve e vai fazer o seu transporte até ao Cais das Colunas, onde procede ao seu desembarque, terminando aqui a reconstituição do transporte da neve para a cidade de Lisboa. Este era servido em sorvete, na casa ‘Martinho das Neves’, que deu origem ao atual Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, em Lisboa.

A neve em Lisboa
(Excerto do ‘Livro de Bem Comer’ de José Quitério)

A neve vendia-se, no final do séc. XVI, nas ruas de Lisboa, à cabeça dos vendedores que a anunciavam com pregões. Mas só com a entrada do século seguinte o gosto de tomar neve se fez moda. Na visita de Filipe III, em 1619, uma das mais instantes recomendações feitas ao Senado da Câmara era que a neve não faltasse enquanto cá estivesse o soberano. Acabaram os edis por fazer contrato com um ‘neveiro’ que se comprometeu, e parece que cumpriu, a trazer à capital quatro cargas diárias de 24 arrobas. Muitos outros neveiros arrematantes houve depois. Como se conservava a neve na serra (mais tarde também na de Montejunto) e como se trazia a Lisboa? Os contratadores guardavam-na em covões abertos nos fraguedos serranos e cobertos de palha. Para a cidade, vinha em cavalgaduras e barcos, diariamente, tendo os transportadores prerrogativas nas portagens e preferência nas travessias fluviais. Em Lisboa, guardava-se em poços. É mais que sabido que quem a consumia na quase totalidade era o Paço.

 

Real Fábrica do Gelo – Serra de Montejunto