//Lampreia: amada e ‘odiada’

Lampreia: amada e ‘odiada’

Os verdadeiros apreciadores de lampreia aguardam ansiosamente o período de janeiro a maio para “matarem” saudades.

Sim, é verdade que há quem percorra muitos quilómetros para se deliciar com uma lampreia de determinada região, mas há também quem torça o nariz ao ouvir falar de lampreia, quem não suporte o sabor ou quem, devido ao seu formato, tenha até dificuldade em olhar para este “peixe esquisito”.

No século passado a lampreia era um peixe abundante nos rios do Norte de Portugal, bem como no Tejo, Zêzere e Guadiana. Mas a partir das décadas de 60-70 tem vindo a registar-se um declínio considerável nas capturas de lampreia em rios como o Mondego e o Tejo, e o seu desaparecimento quase total em rios como o Douro e o Guadiana. A construção de barragens, aliada à poluição dos cursos de água, são as principais causas para este facto, que levou à classificação desta espécie como vulnerável, no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Em Portugal, o arroz de lampreia, com uma confeção próxima da cabidela será, talvez, a forma de confeção mais consumida, logo seguida da bordalesa, um ‘guisado’ normalmente acompanhado de arroz, cuja origem será a região francesa de Bordéus. Há também quem a grelhe ou asse no espeto e quem a ‘defume’.

Este ciclóstomo tem pele sem escamas e possui um aparelho respiratório especial, aspirando a água pela boca e expelindo-a através das guelras que desempenham o papel de pulmões. Atrás de cada olho existem sete aberturas em forma de buraco que correspondem às cavidades respiratórias.
Existe desde o Atlântico Norte até ao Mediterrâneo e aos rios que nele desaguam. Em Portugal, nos rios Minho, Lima, Cávado, Mondego e Tejo.

Desloca-se nadando em movimentos ondulatórios, semelhantes às enguias. Pode subir rochas escarpadas apoiando-se com a boca. Descansa fixando-se nos rochedos ou em objectos flutuantes, barcos e animais aquáticos.

Quando chega a época, sobem os rios e procuram um local onde a água seja fresca, arejada e de corrente rápida, com o fundo de cascalho e areia; macho e fêmea preparam o lugar, retirando as pedras até a areia ficar a descoberto e finalmente, podem acasalar. Após o ritual de acasalamento, e a postura dos ovos, é necessário protege-los da corrente e do ataque dos inimigos. Removem então a areia que se mistura com os ovos, e estes aderem uns aos outros através de uma substância pegajosa. Infelizmente, esta “história” não tem um final feliz, pois tudo indica que após a reprodução, o casal de ciclóstomos morre.

Não é só agora que este é considerado um “prato de luxo” pois já durante o Império Romano era ementa destinada aos Patrícios (classe mais alta da sociedade), e D. Luís, rei de França, mandava-as vir de Nantes em barricas cheias de água.

Foto Lampreia à Bordalesa: C. M. Tomar