//Gastronomia é “património cultural de Portugal” há 18 anos

Gastronomia é “património cultural de Portugal” há 18 anos

Quase duas décadas depois, a data passa quase despercebida e as diretrizes que estão na base do texto são ignoradas ou mesmo desconhecidas.

Durante os três ou quatro primeiros anos ainda se fizeram umas «patuscadas» para dar direito a declarações emproadas e poses para as fotos. Mas depois, rapado o ‘tacho’, todos se esqueceram do banquete.

Em 26 de julho de 2000 foi publicada no Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros relativa à proteção e salvaguarda da gastronomia portuguesa. No documento, resultante da decisão de um Conselho de Ministros então chefiado pelo atual Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a gastronomia portuguesa é elencada como um “bem imaterial do património cultural de Portugal”.

Poder-se-á, como é habitual, desvalorizar ou mesmo criticar o conteúdo do documento, mas a verdade é que se trata do «melhor documento» até hoje elaborado sobre este assunto e com estas caraterísticas, simplesmente porque não temos outro.

Depois da euforia do(s) primeiro(s) ano(s) parece já não ser importante o ‘estatuto’ que foi atribuído à gastronomia portuguesa.

Apenas como exemplo da importância do texto, analisemos algumas (poucas) passagens:

Entendida como o fruto de saberes tradicionais que atestam a própria evolução histórica e social do povo português, a gastronomia nacional integra pois o património intangível que cumpre salvaguardar e promover.

Quanto tempo de existência deve ter um ‘saber’ para se considerar tradicional? Já se ouve falar – apenas a título de exemplo – da francesinha como uma oferta gastronómica ‘tradicional’ da cidade do Porto. Que constitua uma ‘atração’ gastronómica tudo bem, mas tradicional?

Outra passagem do texto refere:

… tem vindo a ser desenvolvido há já alguns anos um conjunto de acções visando inventariar, valorizar, promover e salvaguardar o receituário português, com o objectivo primeiro de garantir o seu carácter genuíno e, bem assim, de promover o seu conhecimento e fruição, por forma, ainda, a que se transmita às gerações vindouras.

Ninguém pode colocar em causa a importância de “inventariar, valorizar, promover e salvaguardar o receituário português”, mas pode legitimamente perguntar-se o que, exatamente, já se fez nesse sentido?

Sobre a valia económica da gastronomia portuguesa, pode ler-se: Esta dimensão de cariz eminentemente económico vem assim acrescer à valia sócio-cultural que a gastronomia portuguesa representa. Este é, talvez, o grande desafio futuro da nossa gastronomia e dos nossos vinhos. Será que conseguiremos que a “dimensão de cariz eminentemente económico”, importante e indispensável, não se sobreponha à “valia sócio-cultural que a gastronomia portuguesa representa”?

Nota – Este texto pretende, essencialmente, não deixar passar em branco uma data que é, inquestionavelmente, importante para a gastronomia portuguesa e, por associação legítima e natural, para os nossos vinhos.

Foto de capa: Google sites