//Comer (n)a Literatura

Comer (n)a Literatura

A literatura e a gastronomia podem parecer mundos muito distantes tão distantes que tornam difícil qualquer tentativa de comparação.

Na verdade, manuais de cozinha são uma coisa e poemas, romances e novelas são outra bem diferente. Contudo existe um momento e um espaço em que se cria o contacto e troca entre estes dois mundos: áreas como a literatura e a gastronomia demonstraram em diversas ocasiões a existência deste espaço mediano, influenciando-se mutuamente, emprestando-se métodos expressivos e intenções comunicativas e tornando-se, ao mesmo tempo, veículos de cultura e identidade. Nestas ocasiões, algo da arte subtil de combinar sabores transmigra na literatura.

O exemplo recente desta hibridação e desta junção em prol da cultura e da identidade foi a 1ª edição do evento ‘Pela boca entra a literatura – Mostra Gastronómica Literária de Palmela’, promovido pela Câmara Municipal de Palmela e inserido no programa de promoção gastronómica “Palmela – Experiências com Sabor!”, que teve lugar no passado mês de setembro. Ao longo desses três dias, os menus dos restaurantes aderentes incluíram alguns dos pratos referidos em romances da literatura mundial ou preparados em homenagem aos mesmos. Os restaurantes aderentes e os sabores imortalizados pelas letras dos livros foram os seguintes:

O Restaurante 3ª Geração, inspirado nos livros de Eça de Queirós e Andrea Camilleri, apresentou como prato de carne o coelho à caçadora, em homenagem a esta confeção culinária preparada por Adelina no livro ‘A Viragem Decisiva’ ao guloso inspetor Montalbano. E como Montalbano também nunca dispensa um bom peixe, chegando mesmo a “empanturrar-se com duas doses de peixe grelhado, uma atrás da outra”, como nos conta o autor no livro ‘O Cheiro da noite’, o restaurante também sugeriu peixe grelhado.

A sobremesa, o arroz doce, foi também inspirada num autor de renome para a literatura, mas desta vez portuguesa, Eça de Queirós. Esta sugestão faz referência ao livro ‘A cidade e as Serras’, onde Jacinto recorda “a larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra.” que não comia “desde a morte da avó.”. A dor e a delícia dos sentimentos, a escassez e a abundância são transmitidas através do alimento com suave requinte na obra deste escritor.

gastronomia e literatura

O Restaurante O Bobo da Corte deixou-se inspirar pelo livro ‘A Guerra dos Tronos’ de George R.R. Martin, tendo apresentado como sugestão de carne e acompanhamento, um dos pratos cuidadosamente descritos ao longo da série e do livro, o pato com mel acompanhado de cebolas assadas e castanhas. Quase conseguimos sentir o sabor rústico e suculento deste prato quando lemos que Bem Stark “surripiou uma cebola assada, que pingava, castanha, molho de carne…”.  O Restaurante Café Duque, apresentou um prato em honra do livro ‘O Fim da Aventura’ de Graham Greene, a que deram o nome de ‘Um Belo Bife’, inspirado na exclamação do protagonista, após saborear o bife que lhe foi servido no Rule “- Um belo bife – disse eu; e soou-me como poesia a resposta dela: – O melhor que jamais comi.».

O Restaurante Culto Café convidou-nos a saborear um prato de carne e duas sobremesas presentes em dois romances. O primeiro, ‘A Campânula de Vidro’, que o levou a sugerir como prato de carne Hambúrguer com Queijo e Batata frita seguido da sobremesa Gelado de Baunilha, uma proposta exatamente igual à do Restaurante ‘Howard Johnson’ onde o protagonista do livro degustava, precisamente, hambúrguer com queijo e batatas fritas, seguido de gelado de baunilha “…na companhia de rapazes como Buddy Willand…”. A torta de laranja foi inspirada na “enorme e belíssima torta de laranja, ainda a fumegar…” tirada inesperadamente do forno pela senhora Castor, mencionada no livro ‘O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa’ de C.S. Lewis.

gastronomia na literatura

O Restaurante Mestre Food Take Away & Churrasqueira, também se inspirou nas iguarias presentes nos livro do escritor Camilleri, neste caso no livro ‘A Forma da Água”, tendo apresentado duas sugestões de pratos de peixe sendo a primeira os Polvinhos, que no livro encontramos como uma receita da senhora Elisa, e que  parecem ao paladar do inspetor Montalbano, uma inspiração divina, como refere o autor: “mais do que uma nova receita para cozinhar polvinhos, a invenção da senhora Elisa, mulher do comandante da polícia, pareceu ao paladar de Montalbano uma verdadeira inspiração divina.” A segunda sugestão de peixe é Massa com Alho e Azeite e Camarão. Para os pratos de carne a inspiração chegou dos livros ‘Um Passo para Sul’ e ‘A Cidade e as Serras’, e a proposta foi a Cachupa e a Cabidela. Uma Cabidela que poderá recordar a que foi preparada pela afilhada de Melchior e enaltecida por Horácio no livro de Eça de Queirós, que lhe dedicaria uma Ode: “- Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás-de ver a canja! Hás-de ver a cabidela…” a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da terra…”

Já o romance ‘O Pintassilgo’ inspirou a proposta para a sobremesa deste restaurante, que disponibilizou Panquecas com Mirtilos e Pepitas de Chocolate.

De regresso à literatura italiana, o Restaurante Pizzas da Vila apresentou um prato vegetariano, a pizza com requeijão, que faz referência à “pizza bem quente com requeijão…” saboreada por Elena no livro ‘A Amiga genial’ de Elena Ferrante.

A Taverna da Ladeira deixou-se inspirar pelo famosíssimo livro ‘O Padrinho’ de Mario Puzo, propondo aos seus clientes o belo prato de esparguete com molho de tomate, muito apreciado por Clemenza. Como sobremesa, a taverna propôs tarte de maçã, sobremesa referida pelo protagonista do livro ‘Pela estrada fora’, Sal Paradise, que recorda: “comi sempre a mesma coisa de um extremo ao outro do país, sabia que eram alimento nutritivos e, é claro, deliciosos”.