//Gaspacho ou vinagrada?

Gaspacho ou vinagrada?

“O prato nacional é como o romanceiro nacional, um produto do génio coletivo: ninguém o inventou e inventaram-no todos…”

O artigo do Jornal dos Sabores a propósito de incluir ou não o pepino na confeção do gaspacho provocou uma interessante e salutar discussão. Como seria de esperar, as páginas do facebook relacionadas com o Alentejo foram as que mais ‘alimentaram’ a troca de opiniões.
Sobre a inclusão ou não do pepino, houve quem afirmasse categoricamente que sem pepino não é gaspacho, que o pepino é opcional ou mesmo que nunca conheceu “tamanho disparate”, uma posição que faz lembrar a discussão entre os dois chefes de cozinha espanhóis com um a defender que deve incluir e o outro a chamar “terrorista gastronómico” a quem adiciona aquele fruto do pepineiro.

Com uma pitada de graça, alguém atirou para a conversa que deve ser sem pepino pois “o sabor e cheiro do pepino prevalecem e contaminam tudo o resto. Ponha-se pepino, seja no que for e a coisa torna-se…uma pepineira”. Mas o sentido prático da intervenção também apareceu com o desabafo: “Com pepino, sem pepino, venha de lá o gaspacho”.

Mas “tem gente que tem prazer em refutar certos costumes pensando que sabe mais que os próprios naturais” como alguém escreveu quando começaram a ver-se comentários que se percebia logo serem ”de quem nunca comeu gaspacho na vida”, como outro interveniente referiu. Foi só nessa altura que a conversa ‘avinagrou’.
E a propósito de vinagrar, a outra grande questão passou a ser a designação: afinal é gaspacho ou vinagrada?

Entre os intervenientes houve quem jurasse que “com 65 anos sempre o conheci por gaspacho”, mas logo uma senhora com apenas menos dois anos respondeu “sou do baixo Alentejo há 63 anos e sempre conheci por vinagrada”. De forma mais direta, alguém afirmou: “No Alentejo chama-se vinagrada. O gaspacho é espanhol e os legumes são triturados.

Reconheçamos no entanto que a designação gaspacho é largamente mais utilizada que vinagrada. E ainda apareceu que lhe chamasse capanhinho e capacho.
Aparentemente não se registaram comentários que coloquem em causa o arjamolho como ‘versão’ algarvia do gaspacho ou vinagrada.

Mas afinal que conclusões se tira?
Que, como diz o ditado popular: “cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”. Ou seja, que não há mal nenhum em que o povo continue a defender a sua própria forma de confecionar e ‘batizar’ a alimentação que faz parte da sua história.

Ou melhor ainda, como escreveu Fialho de Almeida, alentejano de Vila de Frades (Vidigueira), em finais do século XIX: “o prato nacional é como o romanceiro nacional, um produto do génio coletivo: ninguém o inventou e inventaram-no todos…”

Referia-se o autor, evidentemente, aos pratos populares de que não se conhece o verdadeiro autor, como é o caso deste que tem (várias) versões alentejanas, para além das espanholas e algarvias.

Amilcar Malhó

Se não leu o artigo a que faço referência, pode aceder aqui:
https://jornalsabores.com/gaspacho-sem-pepino-c-video/