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Fazer ‘crítica’ de vinhos sem beber

Sem abrir a garrafa, um algoritmo de Inteligência Artificial obtém resultados de análises a vinhos e cervejas.

Quantos de nós já não tiveram a sensação de sentir no paladar “os taninos finos e elegantes notas florais” ou a “acidez” de um vinho graças à escrita evocativa utilizada pelo especialista na sua avaliação?

Leia, por exemplo, esta descrição: “Enquanto o nariz está um pouco fechado, o paladar deste Riesling seco está repleto de sabores suculentos de toranja branca e tangerina. Não é um vinho profundamente concentrado, mas é perfeitamente equilibrado por um toque de acidez lima-limão que perdura no final.” Não tem a sensação de quase poder sentir uma explosão de frutas cítricas na língua?

Pois é, mas o autor desta avaliação nunca teve essa experiência, e sabe porquê? Porque era um software.

Muitos estarão a pensar: Um software? Sim, sem abrir a garrafa, um algoritmo de Inteligência Artificial escreveu críticas a vinhos e cervejas ao nível dos melhores conhecedores e críticos.

É mesmo verdade, um novo algoritmo de Inteligência Artificial (IA) conseguiu replicar as críticas a vinhos e cervejas sem sequer abrir a garrafa e dar um gole. Os resultados do estudo foram recentemente publicados na revista International Journal of Research in Marketing e, segundo os investigadores, as críticas escritas pela IA passam facilmente por críticas escritas por humanos.

A equipa de cientistas espera que este algoritmo possa ajudar os produtores de cerveja e vinho a agregar um grande número de avaliações ou fornecer aos avaliadores humanos um modelo para trabalhar, detalha a Scientific American, revista de divulgação científica dos Estados Unidos.

Os pesquisadores dizem que a sua abordagem pode até ser expandida para análises de outros produtos “experimentais”, como café ou carros. Mas alguns especialistas alertam que esse tipo de aplicação tem potencial para uso indevido. O algoritmo de IA foi usado com vinho e cerveja, mas podia ter sido usado com qualquer outro produto. Os investigadores optaram por estas bebidas, uma vez que as suas descrições têm um grande número de variáveis.

Teoricamente, o algoritmo poderia ter produzido comentários sobre qualquer coisa. No entanto, algumas características importantes tornaram a cerveja e o vinho particularmente interessantes para os pesquisadores.

“As críticas de vinhos e cervejas também fazem um ótimo modelo para texto gerado por IA porque as suas descrições contêm muitas variáveis ​​específicas, como região de cultivo, variedade de uva ou trigo, estilo de fermentação e ano de produção. Além disso, essas revisões tendem a contar com um vocabulário limitado” explicou Keith Carlson, do Dartmouth College, que co-desenvolveu o algoritmo usado no estudo, e acrescentou: “as pessoas falam sobre vinho da mesma maneira, usando o mesmo conjunto de palavras.” Os conhecedores podem utilizar com muita frequência adjetivos como “carvalho”, “floral” ou “seco” e os autores do estudo treinaram o algoritmo com base numa década de críticas profissionais, cerca de 125 mil no total, extraídas da revista Wine Enthusiast. Além disso, foram usadas 143 mil críticas a cervejas do site RateBeer.

Os investigadores pediram a um grupo de voluntários para ler críticas escritas pela Inteligência Artificial e outras por humanos. Na maioria dos casos, os voluntários não conseguiram distinguir as críticas escritas por IA e humanos.

Embora o algoritmo pareça sair-se bem em recolher muitas avaliações e condensá-las numa única descrição coesa, tem algumas limitações significativas. Este pode não ser capaz de prever com precisão o perfil de sabor de uma bebida que não foi provada por papilas gustativas humanas e descrita por humanos.