//Conheça quem faz: ‘Os Doces da Carolina’
doces

Conheça quem faz: ‘Os Doces da Carolina’

Espírito de iniciativa, persistência, capacidade de adaptação, coragem para correr riscos e visão, são estas as principais características de um empreendedor/a e Carolina Sales, possui todas.

“Mostrar ao cliente que pode ter dentro de uma confeitaria o mesmo atendimento de qualidade e experiências gastronómicas que tem num restaurante 5 estrelas” é o que motiva o ‘Carolina Sales Café’ em Oeiras, onde há espaço para os doces finos que fizeram sucesso no Brasil e receitas novas, mais ao gosto dos portugueses.

Carolina Sales, fundadora e administradora da empresa, respondeu desta forma às nossas questões:

 

Porque deixou o Brasil e escolheu Portugal como país para viver e empreender?

A escolha foi um pouco automática. O meu marido e os meus filhos têm cidadania portuguesa e brasileira porque a avó deles é portuguesa e, portanto, sempre tivemos este vínculo. Para além disso, eu já vinha dar aulas numa escola de confeitaria em Portugal com bastante frequência. Na verdade, eu não tinha intenção de me mudar, até que o pós-pandemia no Brasil fez com que o clima de violência e criminalidade piorasse muito. Nós achámos então que seria melhor para as crianças se nos mudássemos para Portugal.

 

Foi fácil adaptar-se a Portugal?

Não, foi bastante difícil. A adaptação a uma nova vida é algo de extremamente complexo. Para as crianças é sempre muito mais simples, porque são pequenas e não têm tanta coisa já cultivada dentro de si. Eu que já sou adulta, tive que adaptar não só uma vida de quase 40 anos, de memória afetiva, como o próprio dia a dia, os meus hábitos e o meu negócio, e adaptar um negócio não é tarefa fácil. Todos os dias há novidades, temos de fazer novas implementações e alterações para nos adaptarmos a novos hábitos e costumes. Lá no Brasil tínhamos uma base de costumes muito diferente.

 

Quais as dificuldades enfrentadas por uma mulher imigrante empreendedora em Portugal na área da alimentação e bebidas?   

Eu posso dizer que não senti tanta dificuldade por ser mulher, mas talvez isso se deva ao facto de o meu sócio ser o meu marido que é homem, então isso talvez me tenha dado uma base de proteção. Também me ajudou muito o facto de eu já ter uma experiência bastante grande na área do empreendedorismo, e consequentemente, de conseguir adaptar e visualizar as necessidades do mercado com alguma facilidade. O aspeto mais difícil foi, sem dúvida, entender os costumes dos portugueses, que são muito diferentes. Tudo é diferente, podemos ser “irmãos”, mas os hábitos diários, o que se consome, a forma como se consome e em que época do ano, são detalhes que para um negócio fazem toda a diferença.

 

doces

 

Conte-nos um pouco da sua relação com a pastelaria portuguesa.

Na verdade, eu não produzo doces portugueses, o que eu faço é uma adaptação, uma aproximação das duas culturas. Por exemplo, no meu fabrico, já existiam coisas com amêndoas, mas eu aqui em Portugal “reforcei”. Já existiam coisas com gemas e eu também reforcei isso. Ou seja, todos os produtos que eu trouxe para cá, poucos foram pensados para Portugal, porque eu queria trazer sabores diferentes. O único que foi criado especificamente para o gosto do consumidor português foi o brigadeiro de figos. Outra adaptação está no meu brigadeiro de gemas, que no Brasil era servido apenas na época do Natal, enquanto que em Portugal é servido o ano todo.

Apesar das pequenas adaptações a “base” dos doces é brasileira, porque o nosso propósito é trazer algo diferente e é isso que tem feito as pessoas virem cá. As pessoas precisam de variação, há sítios mais turísticos onde há algumas novidades, mas no geral, aqui consome-se muito a mesma coisa em todos os cantos, e nós sentimos que havia essa falta de diversificação no mundo da pastelaria.

doces

Quais são os doces portugueses mais consumidos no Brasil e os doces brasileiros mais apreciados pelos seus clientes portugueses?

No Brasil é o pastel de nata. Onde há doces portugueses há pastel de nata, qualquer casa portuguesa lá, tem. Aqui, o doce que os portugueses mais apreciam é o brigadeiro, sem dúvida alguma. E como a nossa base já era o brigadeiro, a aceitação tem sido muito boa. Os clientes vêm, provam na loja e no dia seguinte já estão a fazer a encomenda. Tenho clientes que já vão na terceira encomenda em menos de 2 meses de loja.

Há uma grande procura pelo brigadeiro tradicional e também procuram muito por bolos com pão de ló. Eu trabalho muito com pão de ló e o pão de ló é muito apreciado em Portugal. Unir estes dois tem sido um sucesso porque o pão de ló é leve e o brigadeiro é mais pesado, então há um equilíbrio e as pessoas também se sentem em casa porque reconhecem um produto que é muito utilizado aqui.

brigadeiro

 

Quais considera serem as principais diferenças entre a doçaria portuguesa e a doçaria brasileira?

A confeção é bastante diferente. A doçaria portuguesa é muito mais voltada para a panificação, para a pastelaria. Normalmente, encontramos aqui muitas pastelarias e não doçarias ou chocolaterias. Predomina a pastelaria, porque entende-se que dali sai o pão doce, o pão salgado, o brioche, a bola de berlim, etc. Dá para perceber que 99% dos bolos portugueses têm o pão como base, é tudo muito voltado para a panificação.

Pouco se varia, o foco é no pão. O pão no Brasil já não tem esta força tão grande, e essa foi uma diferença que eu senti muito aqui e ainda estou a tentar entender o que fazer com os pães em Portugal.

Eu no Brasil tinha 3 tipos de pão, deixava-o já recheado e vendia como sandes, pão de queijo e pão na chapa, e isso era suficiente. Aqui não, preciso de variar, mas com cuidado porque eu não sou uma padaria e estava a ter um prejuízo enorme no início. Pedia um volume grande de pão e tinha de ser só para aquele dia, depois tinha que deitar, porque o pão aqui é apreciado frio, então tem de ser o pão do dia. Até eu entender isto, qual o melhor pão e o que consegue aguentar fora mais tempo, foi um grande trabalho. Não é tão simples quanto parece entender o consumo de pão noutro país.

E aqui eu não posso ter pão mais duro se quiser manter a excelência. Hoje eu entendi isso e tenho poucos pães saloios por dia, para estarem sempre fresquinhos. Tenho também o croissant, o pão de deus e os pães de forno. Mas só encontrei o meu caminho testando muito. Posso dizer que um dos principais desafios aqui em Portugal tem sido o pão.

 

Há influência portuguesa na doçaria brasileira?

Sim, temos muitos doces que utilizam ovo, o quindim por exemplo, que nasceu como uma receita portuguesa adaptada ao Brasil e a baba de moça, que é um doce a base de gema de ovo que também é uma adaptação de uma receita portuguesa. Afinal de contas, foram os portugueses que levaram as padarias para o Brasil. Há muita influência, por vezes apenas mudam os nomes. Por exemplo, aqui o nosso pão de sal é o cacetinho. A principal diferença no pão é que lá não há tanta variedade como aqui.

 

No que diz respeito à pastelaria, o que diferencia o consumidor português do consumidor brasileiro?

São principalmente hábitos de consumo. Como referi, aqui consome-se muito mais pão, lá consome-se muito mais ovo. Eu não me via tão pressionada a ter tantas opções de pão salgado no Brasil. Aqui em Portugal o hábito do pequeno almoço é muito grande, lá não. Nós tomamos o pequeno almoço em casa e vamos para o trabalho, no máximo levamos qualquer coisa na mala e depois comemos. Lá ninguém faz pausa para tomar o pequeno almoço na rua. Acontece muito pouco, só num dia especial, enquanto que aqui é um hábito. Quando vim para cá, ainda não tinha esta perceção de que o pequeno almoço é uma parte gritante e necessária do meu tipo de negócio.

Outra questão é que o Brasil é um país altamente consumista, o povo brasileiro tem estímulos do próprio país para consumir em excesso, então para mim era muito fácil vender, conseguia vender tudo em muito volume. O ticket médio era muito mais alto, aqui 10 cêntimos fazem muito diferença porque o euro é uma moeda forte e os hábitos económicos são diferentes, o que faz todo o sentido. Esta é outra adaptação que eu tenho de fazer. Consome-se num valor menor.

 

Como nasceu a sua paixão pela pastelaria?

Foi muito sem querer. Eu sou veterinária, mestre em patologia clínica e já estava a fazer a minha segunda faculdade.

Depois do mestrado, decidi que queria fazer medicina humana, então fui fazer outra faculdade. Quando já estava no sexto ano de medicina humana, casei. Como sou uma pessoa bastante ativa, já estava habituada a trabalhar como veterinária e a ter o meu próprio dinheiro, e quando parei outra vez tudo para ir estudar, o facto de não ter o meu próprio dinheiro incomodava-me muito, não conseguia depender dos outros e só estudar, porque tenho sangue de empreendedora.

Então decidi fazer alguma coisa para me sentir mais útil. Foi aí que comecei a fazer uns trabalhos manuais, caixinhas artesanais, que colocava a venda num site durante o tempo que me sobrava do estudo. O nome dessa empresa era ‘Rosa Chic’. Com o aumento dos clientes, aumentei o mix de produtos, e a certa altura, já vendia outras coisas e a loja ficou muito voltada para noivas, que começaram a pedir-me para colocar algo dentro das caixinhas.

Pensei no que poderia colocar lá e em conversa com a minha avó, cheguei à conclusão que o brigadeiro não era aproveitado ao máximo, todos o amam, mas era um doce subaproveitado nessa altura. Não havia brigadeiros mais gourmets, só havia aquele que nós hoje em dia encontramos nas padarias simples.

Foi assim que decidimos que poderíamos colocar o brigadeiro nas caixinhas, tentar melhorar o produto. Iniciei por fazer uma pesquisa na internet do que havia em São Paulo, que é uma capital muito mais gourmet e que está muito à frente do Rio de Janeiro em termos de investimento na gastronomia. Entrei em contacto com o mercado confeiteiro da época, mais precisamente com o Bondinho, que hoje é o Cadu, e pedi-lhe para me enviar os seus brigadeiros. Comecei a colocar esses brigadeiros gourmets muito inovadores, como o de pasta de pistacho, nas caixinhas e depois criei uma espécie de laboratório em casa onde comecei a produzir esses brigadeiros gourmets. Os resultados foram ótimos: as caixinhas começaram a ficar de lado e até mudei o nome da loja que passou a ser ‘Brigadeiria Chic’. Em 6 meses eu tinha o meu congelador cheio e a varanda do meu apartamento fechada, porque era onde colocava toda a produção. Foi então que decidi que me iria dedicar inteiramente ao meu negócio.

Congelei a matrícula na faculdade e investi a minha poupança numa pequena lojinha bem perto da minha casa. Comecei em 2009 e nunca mais parei.

caixinhas brigadeiros carolina sales

 

Como surgiu a ideia de dar aulas de pastelaria e que tipo de alunos é que procuram estes cursos?

Foi muito rápido, o nosso crescimento foi muito rápido porque não existiam sítios assim, nadávamos em mar azul. Os grandes centros comerciais, jornais e revistas, já nos procuravam, estávamos sempre nos media e foi assim que começaram a surgir os pedidos de aulas. Comecei a dar aulas em 2012, são cursos muito procurados por pessoas que fazem doces em casa ou que têm uma pequena empresa, que estão a começar ou que já têm uma empresa, mas têm dificuldade em algum ponto em particular ou querem resolver alguma questão do próprio empreendimento. E algumas donas de casa também, mas são poucas.

 

Qual é o conceito do Carolina Sales Café?

Queremos mostrar ao cliente que dentro de uma confeitaria, pode ter o prazer de ser muito bem tratado e muito bem atendido e ter ótimas experiências gastronómicas, porque apercebemo-nos de que o atendimento de qualidade, o serviço de mesa, na maioria das vezes, não é aplicado a uma doçaria ou pastelaria. Só existe nos restaurantes mais elaborados, e nós começamos a trazer esse conceito. Porque é que o meu doce tem de ser desvalorizado numa loja mal limpa onde não se importam com o cliente? Nós queremos ter o mesmo patamar gastronómico de um restaurante 5 estrelas. As pessoas têm memória afetiva.

Quando nós comunicámos que íamos fechar no Brasil, todos os nossos clientes nos disseram que levavam consigo excelentes memórias de momentos que vivenciaram dentro da nossa loja. As pessoas sentem falta de ter bons momentos. A nossa loja não é só um local onde bebemos café e saímos. Claro que também se pode fazer isso, mas também se pode relaxar, trabalhar e ter momentos especiais. Temos de trazer bons momentos para que a marca seja criada.

 

 Se tivesse que escolher um produto para ser ‘cabeça de cabaz’ no cabaz do SmartFarmer ‘Frescos em Casa’ qual escolheria? 

O brigadeiro que é um clássico representativo da marca, mas eu gosto muito do brownie, que também é incrível, um brownie recheado com brigadeiro. Pensando também na facilidade de transporte, seria perfeito um pote de brigadeiro, que é um brigadeiro de colher, fácil de transportar. 

 

doces

 

Marta Brescianini