//Confrarias (III): Os Capítulos e as entronizações

Confrarias (III): Os Capítulos e as entronizações

Integrar uma confraria pode trazer vantagens sociais, económicas e até políticas?

Como referimos no texto anterior, os capítulos são, normalmente, cerimónias mais simples ou mais sofisticadas, com o objetivo de ‘integrar’ os confrades. Uma das definições de entronização no dicionário é “elevar ao trono; pôr no trono”, o que não é o caso das ações promovidas pelas confrarias gastronómicas, embora alguns capítulos possam apresentar um aparato e pompa vistos como exagerados, eventualmente motivados pela ilusão de algum dirigente se sentir como ‘rei’.

Os primeiros confrades a integrar uma confraria são, por norma, os promotores e subscritores dos estatutos e da escritura. São designados ‘Confrades Fundadores’.
Posteriormente entram os ‘Confrades Efetivos’ que são, afinal, os que juntando-se aos primeiros, vão constituir o corpo de dirigentes e associados com que se pretende contar para garantir a regular atividade da confraria.

Quando se realiza o primeiro capítulo, a novel confraria convida uma outra confraria, com a qual tenha relação de afinidade gastronómica ou outra, para ‘madrinha’.
Embora não exista unanimidade no procedimento, na maioria dos casos é a figura hierarquicamente superior na estrutura diretiva da confraria madrinha que entroniza o confrade que ficará com posição similar na nova confraria. Este, que será o primeiro entronizado na confraria que nasceu, passa a entronizar os restantes.

Nos capítulos ‘regulares’ trata-se de admitir novos confrades, exceto os fundadores, mas mantendo-se as categorias de confrades efetivos, a que se pode juntar os ‘Confrades de Honra’ com um estatuto diferente e onde se incluem organismos e personalidades locais e regionais de diversas áreas e também as chamadas ‘figuras públicas’. Curiosamente, existem casos em que alguns dos confrades de honra não são apreciadores, ou não gostam mesmo, do prato ou produto representados pela confraria.

Existem confrarias que integram outros tipos de confrades como de ‘mérito’, confrades ‘amigos’ ou até com designações alusivas a crianças e jovens, num esforço – necessário e urgente – de captar ‘gente jovem’ para garantir a continuidade das confrarias.

A cerimónia de entronização, com mais ou menos pompa, com ou sem cerimónia religiosa, implica sempre um ‘juramento’ de compromisso por parte dos novos confrades. Infelizmente, quase sempre esquecido pela maior parte dos entronizados pouco tempo após a cerimónia.

Integrar uma confraria passa, normalmente, por um convite e se a disponibilidade para colaborar com a vida da associação é quase sempre fator que pode desmotivar, fazer parte dela pode ser aliciante e até mesmo trazer vantagens sociais, económicas e políticas.

Este é um tema ‘sensível’ e que motiva conversas discretas. Trata-se, no entanto, de algo absolutamente natural pois uma das virtudes do associativismo é, precisamente, promover a relação entre os seus membros, a chamada socialização, apesar das ‘contra-indicações’ atuais relacionadas com o coronavírus.

Quanto às vantagens económicas, evidenciadas na possibilidade de se concretizarem negócios, nada mais natural pois desde sempre, a possibilidade de confiança motivada pelo regular contacto pessoal constitui uma das principais ferramentas comerciais.

No que se refere ao uso da confraria com o objetivo deliberado e único de retirar vantagens políticas, a indignação que provoca é tão evidente que nem me atrevo a comentar.
Já no que se refere à relação com as autarquias locais e os respetivos eleitos, o assunto merece uma mais profunda reflexão e por isso, remeto-vos para o texto com o título:

Confrarias Municipalizadas (link abaixo)

http://jornalsabores.com/?s=Confrarias+Municipalizadas

Amilcar Malhó

Fotos: Capítulo da Confraria Gastronómica do Bucho de Arganil