//‘Comemos’ com o cérebro

‘Comemos’ com o cérebro

Um investigador em Oxford defende que a experiência de comer começa antes do momento em que a comida nos chega à boca

Charles Spence, professor de Psicologia Experimental na Universidade de Oxford, onde é responsável pelo Crossmodal Research Lab, autor do livro Gastrophysics foi um dos oradores da conferência internacional Experiencing Food: Designing Dialogues, que se realizou recentemente em Lisboa.

Alexandra Pardo Coelho, jornalista do jornal Público falou com Spence que, em entrevista, declarou que os resultados do seu trabalho o levam a concluir que “raramente pomos alguma coisa nas nossas bocas sem antes saber algo sobre o que é, para podermos imaginar o gosto que tem”.

O docente e investigador acrescentou que “a informação vem, em primeiro lugar, daquilo que vemos. Geralmente, ainda antes de lhe tocarmos, podemos cheirá-lo, depois vem o som, e por fim o sabor e o cheiro retronasal, que acontece quando engolimos”,

Um dos pontos essenciais do livro Gastrophysics é precisamente esta “transferência da importância do palato, ou da boca, para a mente da pessoa que está a fazer a prova”. É na mente que todos os sentidos se juntam. Por isso, sublinha Spence, “é aí que reside a chave da prova e não na língua, onde habitualmente localizamos a experiência do sabor”, pode ler-se na referida entrevista.

Neste trabalho da jornalista do Público refere-se um dos exemplos clássicos que Spence gosta de citar: as barras de chocolate Dairy Milk, da Cadbury, que em 2013 os fabricantes decidiram alterar tornando as pontas mais arredondadas. Foi o suficiente para que os consumidores se queixassem, dizendo que a fórmula tinha sido modificada e que o chocolate estava mais doce.

Este caso reforça um dos pontos defendidos pelo investigador: a comida que é servida em formas redondas é geralmente considerada mais doce.

Curiosa é, também, a questão do peso dos talheres num restaurante de fine dining. Spence concluiu que se os talheres forem mais pesados as pessoas estão dispostas a pagar uma conta mais elevada do que se os talheres, mesmo que de qualidade, forem mais leves — possivelmente associam a leveza ao plástico e, portanto, a um produto não nobre, e o peso a metais nobres.

Nota- Artigo publicado no Jornal dos Sabores em outubro de 2017