//Chefe Silva – Biografia (9)

Chefe Silva – Biografia (9)

“O chefe sabia lidar com o presidente do conselho de administração, mas também com os utentes e com os trabalhadores”.

A empresa de catering Eurest, contava em 1975 com cerca de três dezenas de cozinhas de refeições coletivas que, face aos novos tempos do pó- revolução de 25 de Abril e como na esmagadora maioria dos lugares similares, viviam tempos agitados que indiciavam reivindicações por parte dos trabalhadores utentes.
Para responder às exigências dos “clientes”, como lhes chama Aníbal Soares então Diretor Geral da Eurest, afirmando que “mais do que cantinas, as nossas unidades eram verdadeiros restaurantes de empresa”, tornava-se imperioso encontrar alguém competente e respeitado, para dirigir os centros nevrálgicos da importante componente de ‘bem-estar social’ através do estômago.

A escolha recaiu sobre o cozinheiro que começava a tornar-se conhecido no pequeno ecrã e se preparava para iniciar a grande aventura de dirigir a primeira revista semanal de culinária em Portugal.

A saída do Grill do Hotel Altis constituiu um desafio com algum risco pois tinha um percurso profissional fundamentalmente assente em cozinhas de hotel. Mas o facto de conhecer um dos diretores da Eurest, dos tempos da Escola de Hotelaria do Porto, facilitou a decisão.

Estávamos no período em que as Comissões de Trabalhadores, de comportamentos impetuosos e algumas vezes exagerados, faziam sentir a sua força, mais emocionalmente política que racional, nas reivindicações do que antes não era permitido sugerir.
Apesar disso, o ex-Diretor Geral da Eurest recorda, com um visível orgulho no rosto que “nunca tivemos uma greve à tomada de refeições” ou, como se dizia na época em associação ao regime militar, “um levantamento de rancho”. “E isso, reconheça-se, deve-se muito mais ao Chefe Silva do que a mim próprio”, acrescenta.
Por um lado, a forma afável e calma com que o Chefe abordava os problemas e por outro, o facto de se tratar de (então já) uma vedeta da televisão, facilitava os entendimentos, mesmo tratando-se dos mais militantes e fervorosos revolucionários.
Uma realidade que, igualmente, se traduzia no plano interno já que “foi extremamente importante a capacidade de entendimento entre ele, como Chefe das Cozinhas e os responsáveis pelos cerca de 40 restaurantes que entretanto já tínhamos espalhados pelo país”, revela Aníbal Soares.
Mas se o Chefe mostrava artes de entendimento com os colegas/quadros da empresa e com os representantes dos trabalhadores/consumidores, era também “o nosso melhor embaixador junto das administrações das empresas”, acrescenta.
Ele começava a ser figura pública. Era o início da Teleculinária, na sequência da popularidade que já ganhara na televisão e isso contribuía efetivamente para facilitar as relações pois não se compram pessoas com um autógrafo para a esposa de um administrador, de um inspetor ou mesmo de um membro da Comissão de Trabalhadores mas, como se provou inúmeras vezes, as pequenas dedicatórias com assinatura funcionavam na perfeição para abrir ou facilitar o diálogo.
A popularidade contribui muito, mas Aníbal Soares sublinha que “sem a personalidade e o profissionalismo que ele tinha isso não seria suficiente. O chefe sabia lidar com o presidente do conselho de administração, mas também com os utentes e com os trabalhadores da empresa. Hoje, dir-se-ia que desempenhava tarefas de Relações Públicas”.
Nas reuniões da empresa era o único capaz de estar quase a dormir e ao mesmo tempo a ouvir o que se dizia. Na verdade, aproveitava as reuniões para “passar pelas brasas” pois levantava-se muito cedo e deitava-se tarde.
Quando Aníbal Soares reparava que ele estava a “interiorizar raciocínios” perguntava-lhe em tom de despertador “é ou não é chefe”? Nessa altura, abria os olhos, endireitava-se na cadeira e respondia “é sim senhor”!
Espantosamente, sempre que lhe perguntavam qual era o assunto, surpreendia os interrogadores ao fazer-lhes um correto resumo do que se havia falado. Com a simplicidade que o caracteriza, explica agora: “é que não estava a dormir profundamente”.
Aníbal Soares recorda que a isenção de horário para as sessões fotográficas semanais na Teleculinária “aumentava-lhe o sentido de compromisso para com a empresa, acabando por dedicar-lhe muito mais tempo, que ‘roubava’ ao necessário período de descanso”.

Na Eurest, o Chefe Silva só trabalhava na cozinha para fazer demonstrações.
Para resolução de certas situações com os empregados dos vários restaurantes contava muito a forma simples, direta e amiga com que o fazia. Mas sem dúvida que o facto de ser figura pública, com grande popularidade, ajudava muito. Havia respeito e também admiração.

Certa vez, o diretor da delegação sul da empresa entendeu transferir uma das funcionárias de local de trabalho o que, pelos inconvenientes que lhe causaria, mereceu a oposição e revolta da colaboradora que procurou encontrar formas de contrariar a, sobretudo naquela época, polémica ordem.
Chamaram o Chefe Silva que, procurando um tom de voz mais cúmplice do que recriminatório, segredou ao responsável pela delegação: “Então tu és doido, vais mudar precisamente a namorada do inspetor? Isso vai causar-te grandes problemas”.
Claro que o outro voltou atrás.
Ainda hoje não se sabe se existia, efetivamente, algum caso entre as pessoas em questão, ou se foi simplesmente uma forma de o Chefe resolver a situação.

Todos os dirigentes da Eurest, a partir de um certo nível, tinham direito a um carro que pagavam à empresa, recebendo o valor dos quilómetros percorridos.
Porque a popularidade de uns era, e ainda é, o incómodo de outros, havia quem na administração, argumentasse, talvez por deles já beneficiar, que o ‘cozinheiro’ não devia usufruir dos mesmos direitos. Aníbal Soares defendeu então que se alguém justificava essa benesse, era o responsável pelas cozinhas pois nessa qualidade percorria o país. “Consegui a aprovação a nível internacional e o Chefe adquiriu o seu primeiro automóvel, um Datsun“, lembra o gestor.

Zita Saraiva, que chefiava a Delegação Regional do Norte da Eurest recorda, desses tempos, “um homem amigo do seu amigo, sem tiques de vedeta, apesar da popularidade de que gozava”.
Também ela testemunha o contributo dessa popularidade para a empresa revelando que “ quando ele vinha ao norte eu marcava as reuniões contando com a sua presença pois isso facilitava-me muito a relação com os clientes”.
Aliás, muitos clientes “metiam cunhas para que ele passasse por lá”, conclui.

Aníbal Soares termina recordando o dia em que o levou a uma quinta da família na Beira Alta. “Foi, com a falecida esposa, e a minha mãe ofereceu-lhe a receita de arroz de buchelo que publicou na Teleculinária”.

Depois de 12 anos na Eurest, o Chefe Silva, na sequência de um negócio em que não contou com os parceiros certos, viu-se forçado a ‘agarrar’ o Restaurante Big Aple, na Avenida Duque D´ávila em Lisboa. Esteve 15 anos a ‘segurar’ o negócio, em simultâneo com outras atividades, embora com o apoio da esposa, dos filhos e mais tarde, das esposas destes.
O ‘Super Chefe’, assim passou a chamar-se o restaurante pouco tempo depois, continua ligado à família.

(Nota – Os textos aqui reproduzidos foram publicados em livro em 2008 pelo que poderão verificar-se ‘desatualizações’)

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.

Nota – Pode consultar todos os capítulos já publicados em:https://jornalsabores.com/category/gastronomia/chefe-silva/