//Chefe Silva – Biografia (8)

Chefe Silva – Biografia (8)

Após o 25 de Abril de 1974, na cozinha pouco mudou pois fez questão de manter a mesma disciplina.

Mas lembra-se de uma vez lhe perguntarem “qual era a minha profissão e eu respondi, sou chefe de cozinha. E então avisaram-me…ponha-se a pau porque isto agora não está nada bom para os chefes”.
Sem se intimidar respondeu: “lutei muito para ser chefe, tenho muito orgulho nisso e nunca irei negar o meu estatuto de chefe de cozinha”.

Até ao final de 1974, o ano da revolução dos cravos, permaneceu em funções no Dom Henrique onde, como em praticamente todo o tecido empresarial em Portugal, se vivia um clima de confusão e de excessos reivindicativos por parte dos trabalhadores.
O Chefe Silva sente-se nitidamente incomodado com o assunto mas sempre afirma que “sim, foram tempos difíceis. Foi um pouco complicado e era preciso ter bagagem para aquilo. Havia muita gente que queria entrar em paranóia, mas outros queriam trabalhar e receber ao fim do mês.”
A moderação nos comportamentos não era, obviamente, muito bem vista por quem pretendia colocar em prática métodos revolucionários de “luta contra o patronato”.
O Chefe da cozinha do Dom Henrique no entanto, tudo fez para manter o comedimento que julgou necessário naqueles tempos conturbados.
Alexandre Solleiro, então concessionário e gestor daquela unidade hoteleira recorda que “o Chefe Silva foi um dos poucos que tentou resistir aos excessos revolucionários daquele período. E eu disse-lhe a ele e a mais dois ou três, que era melhor não darem muito nas vistas que não concordavam com eles, porque isso podia dar mau resultado”.
Aos 81 anos parece ter bem vivos na memória os acontecimentos que o obrigaram a abandonar Portugal: “Havia uma grande pressão e eu, que tinha lá posto todo o meu dinheiro, tive que pedir dinheiro emprestado a um amigo em Espanha, para ir para o Brasil.”
Alexandre Solleiro havia saído em 1972 do Hotel Infante de Sagres, para onde entrara em 1961 e assume claramente que foi sua a ideia de atribuir ao novel hotel da mesma cidade o nome Dom Henrique “ para fazer concorrência ao Infante de Sagres que era um hotel de luxo, mas o Dom Henrique era um quatro estrelas moderno, com muita qualidade e virado para homens de negócios”.
Recorda o Chefe Silva como “uma pessoa muitíssimo educada, muito trabalhadora e muito conhecedora da sua profissão”.
Regressado ao país natal, ficou feliz por “o ver na televisão, a fazer sucesso numa coisa que fazia muito bem. Fiquei com uma grande estima por ele”.

 


No final do primeiro ano que assinalava a liberdade em Portugal o Chefe passou, a 2 de Janeiro de 1975, para a Escola de Hotelaria e Turismo do Porto para onde foi ganhar 16 contos. O Director de então, ganhava 14.
Particularmente naquele período de agitação social a questão dos salários era extremamente sensível pelo que, inevitavelmente, aconteceram protestos porque o chefe da cozinha ganhava 16 contos e o director só 14. “Eu não gostei, porque eles deviam ter reclamado por ganharem só quatro”.

Na sua função de formador “de que muito gostava pois ainda hoje gosto de ensinar” o
Chefe deparou-se com alguns ‘esquemas’ que teve que contrariar sem deixar esturrar.
Eis um exemplo relacionado com formandos que frequentavam cursos profissionais que lhes dariam equivalências ao ensino regular:
“Eu fui substituir um velhote que era muito brando com os alunos e havia indivíduos que não sabiam mesmo nada, mas levavam 16 e 18 valores.
Achei aquilo estranho e depois de perceber o que se passava, para o primeiro teste escrito comigo, preparei um conjunto de perguntas que mandei passar a stencil. Mas no dia seguinte, em vez do questionário em cima da mesa, decidi colocar no quadro de lousa as perguntas, que eram totalmente diferentes das que tinha preparado antes.
Fui para o fundo da sala, sentei-me lá numa cadeirinha e muitos dos que costumavam tirar 16 e 18 passaram para dois”.

O que se passou então?
O stencil referido era uma máquina muito usada na altura para fazer cópias de um determinado documento. As cópias eram guardadas para a avaliação do dia seguinte mas a matriz era lançada para o lixo, sendo recuperada por alguém “que se encarregava de passar uma colher por cima o que permitia reproduzir o texto para outra folha” ficando assim alguns a saber antecipadamente as perguntas que outros desconheciam.


E a verdade é que os ‘alguns’ baixaram imediatamente a pontuação que habitualmente conseguiam.
No âmbito do trabalho na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto foi durante quatro meses para o Hotel Escola de Santa Luzia em Viana do Castelo.
Para aceitar a ‘transferência’, exigiu o aluguer de um apartamento para toda a família “e o então Secretário de Estado Asdrúbal Calisto teve que, para o efeito, pedir uma autorização ao 1º Ministro Vasco Gonçalves”, recorda com um largo sorriso.
Foi também através da Escola de Hotelaria e Turismo que aconteceu o contacto com a RTP no Porto.

Veio para Lisboa, para o Hotel Altis onde entrou em Junho de 1976, para chefe do Grill no último andar, ali permanecendo apenas 4 meses, tempo suficiente para, como afirma “ fazer uma grande amizade com o Sr. Fernando Martins”, o proprietário do Hotel e presidente do Benfica entre 1981 e 1987.

Foi dirigente sindical no triénio de 1975-77. Primeiro, 2º secretário e depois vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Hoteleira e Similares dos distritos do Porto, Vila Real e Bragança.

Em Outubro de 1976, aceitou um novo desafio e foi para a Eurest.

(Nota – Os textos aqui reproduzidos foram publicados em livro em 2008 pelo que poderão verificar-se ‘desatualizações’)

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.

Nota – Pode consultar todos os capítulos já publicados em:
https://jornalsabores.com/category/gastronomia/chefe-silva/