//Chefe Silva – Biografia (5)

Chefe Silva – Biografia (5)

Em 1955 foi “para a tropa, no Lumiar” e conheceu a menina Graça, sua futura esposa.

A Tropa

Em 1955 surge o serviço militar e foi “para a tropa, no Lumiar”.
Confrontado com o magro pré (ordenado) que recebia do exército, “dava o salto”, calão que definia a ausência do militar do quartel sem a devida autorização. Literalmente, saltava o muro para ir trabalhar para o hotel, garantindo assim um reforço financeiro correspondente a cerca de metade do ordenado que recebia a tempo inteiro.
Claro que foi apanhado muitas vezes, arcando com os inerentes castigos, normalmente traduzidos em aborrecidos períodos de sentinela. Mas sustenta que valeu a pena pois “para além do dinheiro extra que ganhava, foi uma forma de me manter agarrado à cozinha”.
Na tropa nunca colocou sequer a hipótese de ser cozinheiro, optando por participar nos testes necessários à frequência do curso de telegrafista. Evitou ter bons resultados nos testes psicotécnicos para ser criptógrafo, pois nesse caso, ficaria em melhor posição para não ser mobilizado para a Índia.
Terminada a ‘especialidade’ foi para a Companhia de Telegrafistas, na Graça, onde repetia as saídas clandestinas que, de igual forma, lhe valeram períodos acrescidos de serviço de guarda nas frias e sombrias guaritas.
Recorda no entanto que “nem tudo era mau” pois como na imediação existia um parque de diversões, a monotonia da sentinela era quebrada com a aproximação das sopeiras, nome atribuído na altura às empregadas domésticas, que ao final do dia se encontravam com os namorados.

Depois de algumas horas passadas a andar de carrocel, uns tirinhos nas barracas e umas voltinhas de braço dado a tentar roubar beijinhos vinha, inevitavelmente, a vontade de “ir à casinha”. Que não havia.

Perante a inexistência de instalações próprias para o efeito, as jovens donzelas aproveitavam a escuridão da proximidade do muro do quartel para se aliviarem das gasosas e outros refrigerantes oferecidos pelos amados, sem se aperceberem da presença do guardião militar.
“Elas ficavam de costas para os namorados, que bem espreitavam, mas era eu quem acabava por ficar de frente para elas”, recorda embevecido com ar maroto de septuagenário.

Regressado ao quartel do Lumiar conseguiu o lugar de telefonista, ocupação de que muito gostava porque lhe permitia atender as meninas que para lá telefonavam a procurar os namorados. Fosse pelo empenho na tarefa, ou pelos dotes de comunicador que então começavam a despontar, rapidamente conseguiu uma lista pessoal de contactos capaz de competir com a do próprio quartel. “Cheguei a ter 4 namoradas ao mesmo tempo” diz, retomando o indisfarçável e atrevido sorriso de orgulho masculino dos anos 50.

A menina Graça
Num dia que os crentes diriam que estava escrito no livro do destino, ligou para uma residência com o objetivo de dar continuidade a um processo de conquista “que estava a ser um pouco mais difícil que o costume”. Mas quis o destino que daquela vez fosse a afilhada da patroa a atender. A voz da donzela encantou-o e sentiu o coração “a bater mais que depressa que uma rajada de metralhadora em dia de treino militar”. Não o sabia, mas era o Cupido prestes a acertar-lhe, não com a flecha, mas com o “tiro do amor”. E estes “é que deviam ser os únicos tiros a ser disparados”, aproveita para sentenciar.
“Não foi fácil” como confessa, mas depois de alguma insistência e apesar do jogo defensivo da menina Graça, conseguiu marcar um encontro aproveitando a ida da jovem à missa. No exterior da igreja do Campo Grande, à saída da eucaristia, António enche-se de coragem e avança. “Como já tínhamos combinado, ela ao ver um magala a ir na sua direção percebeu logo de quem se tratava”. Foi o primeiro contacto com a mulher por quem se apaixonou e “ por quem ainda estou apaixonado”, afirma convicto, embora desolado pela sua viuvez desde 2005. Foram 3 anos de namoro e 45 de casados.

António da Silva ainda pensou em, depois do Exército, integrar o então Corpo de Marinheiros da Armada mas acabou por desistir da continuidade da carreira militar.
Pelo seu interesse documental e sobretudo como curiosidade para os jovens nascidos numa época em que só vai para a tropa quem quer e é permitido pensar como se quiser, aqui ficam duas das exigências feitas na altura aos pretendentes a marinheiros.

Em Novembro de 1956 apresentou um requerimento ao Comandante do Corpo de Marinheiros da Armada, a solicitar “admissão ao concurso aberto para 2ºs cozinheiros da armada”.
Nota curiosa é que, para o efeito, o requerente teve que apresentar uma declaração, com assinatura reconhecida, na qual se pode ler:
Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.
Para o mesmo efeito, assinou e fez reconhecimento de assinatura num outro documento (Exclusivo da Imprensa Nacional de Lisboa) no qual consta o seguinte texto:
Nos termos do artigo 3º da Lei nº 1901, de 21 de Maio de 1935, declaro, pela minha honra, que não pertenço nem jamais pertencerei a associações ou institutos secretos definidos no artigo 2º da lei acima mencionada.

Quando saiu da tropa regressou, de novo a tempo inteiro, ao hotel Império.
Namorava com Maria da Graça mas quando se falava em casamento, fazia uso de toda a sua capacidade criativa para mudar de assunto.
Apareceu entretanto uma oportunidade, oito meses depois, de ir para Lourenço Marques.

(Nota – Os textos aqui reproduzidos foram publicados em 2008 pelo que poderão verificar-se ‘desatualizações’)

Fotos:
Capa (guarita): Blog Charquinho
Interior: igrejacampogrande.pt

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.