//Chefe Silva – Biografia (3)

Chefe Silva – Biografia (3)

Quem o recorda é o padre Eurico, quatro anos mais velho que o Chefe Silva mas com a memória dos acontecimentos na aldeia bem viva, apesar de ter estado de 1971 a 2005 junto das comunidades de emigrantes portugueses.

Quando o Chefe Silva iniciou a sua atividade na televisão o padre Eurico estava na Alemanha. A partir de 1992, com as transmissões da RTP Internacional, é que se apercebeu da popularidade do filho da terra que começou igualmente a ser conhecido dos emigrantes “até porque as pessoas quando vinham de férias levavam daqui a Teleculinária”, conta o padre Eurico, acrescentando que “tinha muito gosto em dizer que ele era da minha terra”.
A mãe do Padre Eurico, Dona Eugénia, era Chefe de cozinha no hotel das termas e, naturalmente, nos contactos com o filho referia-se muitas vezes ao “António que está muito bem de vida, lá pra Lisboa”. Conta o filho, visivelmente feliz, que a mãe “ficou até toda contente porque uma das receitas de bacalhau apresentadas por ele foi o bacalhau à D. Eugénia”. Sem conseguir conter uma gargalhada de saudade remata “a minha mãe era o Chefe Silva cá da terra”. Mas quando vinha de férias a Portugal, a primeira coisa que queria comer era “sardinhas assadas com pimentos e tomate”.

Ora, continua o padre emigrante, de entre as pessoas que regularmente vinham de fora, havia uma senhora muito religiosa de Lisboa, a D. Joaquina que “nasceu para ajudar as estruturas educacionais da igreja” refere, acrescentando ainda que “foi ela que levou o António para o Seminário de Santarém”. E levou-o a ele, jovem Eurico, para os Salesianos no Estoril. Naquele tempo “não nos perguntavam se queríamos ser padres. A gente ia porque queríamos valorizar-nos. Mas só ia quem mostrasse capacidade para tal. Ora o António Silva mostrou-o e o Padre João apontou a essa senhora aquele miúdo que andava ali, que era realmente muito pobre, mas tinha, de facto, grandes capacidades”.

O Seminário e a ‘tentação da carne’
E foi assim que, concluída a escola primária, com 11 anos, a freguesia quotizou-se e lá se conseguiu o dinheiro para que o pequeno António pudesse rumar a Santarém. Esteve dois anos no Seminário Patriarcal da capital ribatejana. Desse tempo, recorda que não lhe agradava muito pois “tinha que rezar de manhã à noite”, mas por outro lado sentia-o como uma bênção porque “eu queria era sair da terra, fugir daquela miséria”.
Apesar dos receios, reconhece no entanto que a sua característica de pássaro de voo livre não sentiu gaiola porque “o regime não era muito rígido, nada como li num livro, salvo erro do Virgílio Ferreira, que falava de seminários muito fechados”. Não tem hoje qualquer dúvida que do ponto de vista académico o tempo que passou no seminário foi de grande importância. E maior seria, talvez, se no caminho não se tivesse atravessado o “desejo da carne”.

Tudo começou com o desaparecimento de umas calças do jovem seminarista.
Depois de algumas reprimendas pela ausência dos necessários cuidados com o guarda-roupa e de várias tentativas para encontrar a peça de vestuário, foi-lhe ordenado que se dirigisse à lavandaria e “fosse como fosse” encontrasse forma de resolver o problema.
Os mais fundamentalistas diriam que foi o demo que o acompanhou naquele momento. Outros dirão simplesmente que “não tinha que ser”. Ele prefere dizer que, mais uma vez, “Deus escreveu direito por linhas tortas”.
É que na ausência da senhora madura e já um pouco anafada responsável pela lavandaria, o seminarista Silva encontrou uma jovem, de carnes rijas, rosto rosado dos campos ribatejanos e uma voz doce como cerejas maduras.
Bastou-lhe olhar, assim de tão próximo, quase a sentir o hálito e o perfume de pele fresca, para decidir que definitivamente, não sentia um tão grande compromisso com Deus que o levasse a abdicar do prazer supremo de vir a namorar, talvez mesmo casar e nesse caso, decididamente, gozar dos prazeres que supostamente são devidos ao homem que passa a ter uma mulher na cama.
Recorda agora com um sorriso maroto: “Quando vejo um borrachinho daqueles à minha frente percebi que gostava de raparigas e com 12, 13 anos, ainda estava a tempo de mudar”. E mudou. Foi de férias da Páscoa e já não regressou ao seminário.
Foi “um click”, como lhe chama.

Entretanto, algures em Lisboa, uma jovem de nome Graça, nem sonhava que estava a sair de um seminário o homem que, antes de se tornar exímio na arte de surpreender palatos e confortar estômagos, haveria de manifestar uma enorme sensibilidade para “cozinhar” em paixão branda, os argumentos que haviam de conquistar o seu coração.

Apanhou o comboio para Lisboa, apareceu em casa do irmão e este, indignado com a atitude do seminarista e sem conseguir devolvê-lo à procedência, despachou-o para a terra pois “para além de pequeno, também me saíste um bom malandro”.
O irmão era, na ocasião, comandante de companhia dos Sapadores Bombeiros.
De regresso a Caldelas, com 14 anos, as dificuldades encontradas fizeram-no perceber que dali em diante, teria que aprender a “trabalhar no arame”. Literalmente, porque na sua primeira ocupação remunerada “fazia coisas em arame, como ratoeiras”, recorda.
No período de Verão, com a chegada dos turistas para as Termas, “ganhava-se mais uns tostões”. De certa forma, esta população sazonal, com hábitos diferentes e uma vida melhor, contribuiu significativamente para aumentar no jovem António a certeza, que muitos milhares igualmente tiveram um pouco por todo o país, de que “isto aqui, não dá nada”.

Também ajudou na missa, tarefa que lhe rendia “mais uns tostões”. Curiosamente, hoje, uma das ruas que dá acesso à entrada da igreja Matriz…(continua)

Fotos:
Capa: Seminário de Santarém (Diocese de Santarém)
Interior: Padre Eurico

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.