//Chefe Silva – Biografia (2)

Chefe Silva – Biografia (2)

Com o nome curto e simples de António da Silva, nasceu em Caldelas uma criança, filha de Domingos Rodrigues, com 75 anos e de Teresa de Jesus da Silva, uma jovem de 30 anos. Logo à nascença ficou marcado o cunho singular que haveria de o acompanhar por toda a vida.
Nascido a 29 de Março de 1934, foi batizado na Paróquia de Santiago de Caldelas três dias depois e registado, na Conservatória do Registo Civil de Amares, com data de nascimento a 5 de Abril para que o pai não pagasse multa.
Consta no documento oficial como filho de pai incógnito mas, no documento de baptismo, da paróquia de Caldelas, lá estão os nomes dos pais e dos avós paternos e maternos e estes, curiosamente, também como padrinhos.

Pela diferença de idades dos progenitores, percebe-se que o nascimento da criança não tenha sido considerado um acontecimento absolutamente normal numa terra conservadora e socialmente moldada aos usos e costumes das importantes famílias, sobretudo do norte do país, que então frequentavam as afamadas termas.

O povo da terra comentou aquela relação entre o viúvo, pequeno lavrador reconhecidamente exímio na arte de dividir o milho ao semear, e a jovem trintona que nele viu a oportunidade de amenizar um futuro que se mostrava incerto e doloroso.
Alheio às conversas venenosas e aos juízos das guardiãs dos bons costumes na casa dos outros, o jovem António cresceu sentindo, mas não percebendo, as dificuldades que desde cedo se lhe colocaram.
Aprendeu a arte de tornear os obstáculos que se colocavam no caminho dos pequenos que, como ele, conheciam cada centímetro das ruas e nestas, as pedras que lhe ameaçavam os pés descalços, condição que suportava por ser uma das crianças mais pobres da aldeia.
Mas acabou por sair um rapazola esperto, reconheciam todos, embora sempre acrescentando que não se portava muito bem o que, de certa forma com acerto, era atribuído à idade avançada do pai e ao pouco controle exercido por parte da mãe.
Os colegas chamavam-lhe o Ton’ Peneireiro porque “andava sempre a brincar à beira das raparigas”, recorda agora com um sorriso maroto.

A Escola
Passou diretamente da 1ª para a 3ª classe.
Da escola, recorda com carinho, o professor José Maria Pessegueiro.
Mas quem esteve com ele mais tempo foi Alexandre Adelino Antunes, docente que
o marcou profundamente por ser muito exigente e porque impunha muito respeito “com aquele comportamento militar”. O Chefe Silva reconhece hoje que “aquela maneira de ser, militarista, acabou por ajudar a disciplinar-me. E eu não fazia ideia nenhuma do que era aquilo da farda”.
Aquilo, da farda, era a postura correta, na altura, para um membro da Legião Portuguesa, criada em 1936 com o objetivo de “defender o património espiritual da Nação” e a ameaça comunista. Foi o único organismo português que se colocou ao lado das intenções de Hitler durante a II Guerra Mundial

Retomando o desenrolar das memórias, António recorda que “naquele tempo, na minha escola, tínhamos as fotografias de Salazar e Carmona e estendíamos a mão em continência quando entrávamos na escola. Quer dizer, eu não sabia o que estava a fazer. Hoje sei que era nazi, ou fascista, ou lá o que era”.
Na aldeia, fome propriamente não havia já que a horta e a capoeira amenizavam as dificuldades, mas o pequeno António sabia como ninguém o significado da palavra carência. “Sempre que ouvia de noite o vento a uivar, já sabia que no dia seguinte havia muita castanha no chão para apanhar” recorda, com um olhar achado na memória.

Na Primavera subia as árvores, procurava os ninhos e, com destreza e alguma sorte, matava saudades do sabor da carne já que a comida do dia a dia era o caldo. Feijão, couves, azeite e farinha de milho.
Lembra-se de ver a mãe cozinhar os pulmões da vitela (bofe) com arroz, aguardando ansioso o momento de saborear um prato que, recorda emocionado, “era melhor que arroz de galinha”, comparação possível hoje que já preparou, provou e comeu, iguarias com que naquela altura nunca sonhara, até porque nem sabia que existiam.
Mas ao longo da vida e apesar da quantidade e variedade – ou talvez por isso – já lhe vieram à memória, inúmeras vezes, os sabores desse tempo.

Em 1944 a situação agravou-se com o falecimento do pai.
O livro de gramática da 4ª classe foi-lhe oferecido pela Casa do Povo e os restantes pelo professor. Os cadernos eram oferecidos pelos colegas.
Nem tudo era mau. Havia necessidades materiais, mas havia também solidariedade.

Caldelas, como estância termal de grande fama na altura, registava particularmente durante os meses de Verão uma enorme atividade motivada pela chegada de famílias que vinham para as férias termais, contribuindo assim para uma substancial melhoria da vida da população local.
No Inverno, voltavam as dificuldades e para os mais desprotegidos da sorte “havia aquilo a que chamavam o pão dos pobres que de acordo com o agregado familiar, dava a cada pobre meio quilo, um quilo, quilo e meio ou dois quilos de pão por dia que íamos buscar à padaria com um cartão que era picotado”, recorda o então Ton’ Peneireiro.

O Padre João, homem profundamente cristão e nessa missão sempre atento à possibilidade de ajudar o seu rebanho, via no pequeno António potencialidades que ali, inevitavelmente, acabariam por se perder. Sabia que as disponibilidades financeiras da mãe nunca permitiriam dar continuidade às excelentes prestações do filho em matéria escolar. O velho padre bem tentava encontrar uma saída, “mas não tinha dinheiro e por isso não conseguia pegar naqueles miúdos que tinham capacidades, mas não tinham meios de ir estudar”.

Quem o recorda é o padre Eurico, quatro anos mais velho que o Chefe Silva mas com a memória dos acontecimentos na aldeia bem viva… (continua)

Fotos:
Capa – Estância Termal (década de 1950)
Interior – Rua de Caldelas (década de 1950)

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

 

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.