//Chefe Silva – Biografia (13)

Chefe Silva – Biografia (13)

Depoimentos de José Carlos Malato (Apresentador); Carlos D’oliveira (Assistente de programa) e José Luís Carvalhosa (Diretor de Fotografia)

O Chefe Silva, no programa das tardes da RTP, Portugal no Coração foi durante muito tempo “anfitrião” de confrarias gastronómicas, proprietários de restaurantes e chefes de cozinha que ali apresentavam a suas propostas. Sempre com a colaboração e o olhar “guloso” do comunicador e amigo;

José Carlos Malato
(Apresentador de Televisão)

“… no Portugal no Coração, percebia-se perfeitamente que as pessoas sentiam uma enorme empatia com ele”.

O comunicador televisivo confessa que “já tinha admiração pelo Chefe Silva que conhecia de ver na televisão. Ele era a minha grande referência em termos de culinária, ainda por cima eu, que gosto tanto de comer. E depois tive o prazer de trabalhar com ele durante um ano e tal”.

No programa Portugal no Coração, o seu último trabalho regular em televisão até este momento, o Chefe fez de anfitrião das Confrarias Gastronómicas e de muitas pessoas ligadas a restaurantes ou a eventos gastronómicos realizados um pouco por todo o país.

Malato recorda que se percebia “um grande respeito por ele. Porque ele tem essa componente fantástica de estar sempre recetivo aos outros”. Acrescenta que “ele é ternurento e no Portugal no Coração, percebia-se perfeitamente que as pessoas sentiam uma enorme empatia com ele”.

Mas José Carlos também não esquece os maus momentos que o Chefe viveu quando ficou viúvo:
“Acompanhámo-lo durante esse período terrível. Foi muito doloroso, começou a ficar um pouco doente, mas por outro lado, o facto de estar ativo ali connosco e até com o nosso apoio, acabou por ser muito bom para ele”.

Mais do que uma relação de trabalho, o apresentador recorda a relação de grande amizade e de respeito que sempre existiu. E exemplifica:
“Ele dizia muitas vezes a frase; a cozinha portuguesa não é estática, é dinâmica. E quando o dizia apontava com os dois dedos indicadores. Eu e a Merche brincávamos muito com isso e ele entendia a brincadeira, com a ternura com que o fazíamos”.

Sabendo que Malato vivia sozinho, o Chefe tentava dar apoio ao planeamento (ou falta dele) das refeições “e dizia-me; Zé Carlos, anda cá que eu quero dar-te aqui umas receitas fáceis para fazeres lá em casa. Almoças isto, jantas aquilo…”.

E termina com aquele sorriso bonacheirão com que conquista os telespectadores: “Tenho muito carinho pelo Chefe Silva”.

Para ultrapassar imprevistos ou para minimizar estados de espírito menos positivos, há que contar com a camaradagem da equipa. É, por isso, um local onde por vezes se salta a fronteira do profissionalismo e se entra em território de amizades genuínas. Como aquela que ainda mantém bem viva com;

Carlos D’oliveira
(Assistente de Programas no Centro de Produção do Norte da RTP)

“Por tudo o que é, e sempre me demonstrou, seria impossível não ter por ele esta grande amizade”.

Conheceu o Chefe Silva quando há cerca de 20 anos entrou para a RTP Porto.
Na altura em que gravava uma vez por mês, o Chefe vinha de manhã de Lisboa, normalmente acompanhado pela esposa, e chegava ao Porto por volta da hora do almoço. Almoçava na “nossa cantina e nunca o ouvi fazer comentários sobre o que comia”, diz Carlos D’oliveira.
De tarde, eram gravadas as intervenções para quatro ou cinco programas “num estudiozinho pequenino, com um pé direito muito baixo e projetores que faziam tanto calor que entre cada uma das receitas gravados, tínhamos que abrir as portas para arejar”, recorda acrescentando que “ a luz dos projetores, o número de pessoas dentro do estúdio e o aquecimento do fogão ou do forno provocavam um enorme cansaço em todos nós”. Mas depois de todo o esforço, o Chefe Silva fazia sempre questão de regressar de imediato a casa, apesar de “eu tentar sempre demovê-lo, para que pernoitasse no Porto, até porque a RTP pagar-lhe-ia o alojamento a que tinha direito”.

Carlos sorri e acrescenta “eu até gostava de o ter convencido a ir uma noite jantar e mostrar-lhe a Ribeira e outros locais emblemáticos do Porto, mas ele queria sempre ir para casa, sem demonstrar grande cansaço. Mostrava cá uma energia”.
Não jantava na cidade, mas acompanhava o pessoal da produção quando, após as gravações, todos se reuniam a saborear os pratos televisivos.

A terminar, Carlos D’oliveira deixa escapar em voz alta o pensamento daquele preciso momento:
“Por tudo o que é, e sempre me demonstrou, seria impossível não ter por ele esta grande amizade”.

Interessante pode ser, também, conhecer a opinião de um dos muitos profissionais que, pelas características das suas funções, quase passam despercebidos ao protagonista da emissão. Isso não impede que formem a sua própria opinião, como se prova com o depoimento de;

José Luís Carvalhosa
(Director de Fotografia)

“Quando perguntámos se havia algum problema, o Chefe respondeu com toda a ironia “ó pá, isto cansa”.

Não tenho memória de quem apresentava o programa “ÀS DEZ”, visto que a participação do Chefe Silva era um conteúdo dentro desse espaço.
Mas as recordações que tenho do Chefe, são as melhores, do ponto de vista profissional um homem extremamente organizado, muito competente, com uma excelente visão do que é trabalhar para um meio tão importante como é a televisão, com uma facilidade só possível aos grandes comunicadores, que penso e creio através da minha experiência profissional, e porque não como espectador, que é um dom só partilhado por alguns.
Acredite que foi muito divertido trabalhar com o Chefe, e que belos almoços no final de cada gravação pudemos desfrutar, cuidadosamente preparados pelo Chefe com todo o carinho, de propósito para a equipa, igual à ementa do programa, mas para ser degustada e não para ser gravada. O único senão, eram as sessões de fotografia dos pratos para a revista que, como era inevitável, nos atrasava o almoço para perto, ou depois das 16 horas.
Entre algumas cenas divertidas, uma que ficou na minha memória é a seguinte: num dos programas, o Chefe batia claras de ovos em castelo com uma vara de arames, ao mesmo tempo que explicava as vantagens das claras serem batidas manualmente e não com uma batedeira eléctrica. Tudo estava a correr muito bem e, qual não é a surpresa da equipa, quando o Chefe diz “CORTA” o que não era habitual nele. Quando perguntamos se havia algum problema, o Chefe respondeu com toda a ironia “ó pá, isto cansa”. E calmamente foi buscar uma batedeira eléctrica com a qual acabou de bater as claras, sem nós estarmos a gravar. Quando terminou, retomámos a gravação com umas claras magnificamente “batidas à mão”.
Apesar de não ter uma grande relação pessoal com ele, foi, uma das pessoas com quem gostei muito de trabalhar.

José Luís Carvalhosa

(Nota – Os textos aqui reproduzidos foram publicados em livro em 2008 pelo que poderão verificar-se ‘desatualizações’)

Chefe Silva – Biografia, tem o patrocínio de:

Do valor dos patrocínios, 25% é atribuído à área de Formação da ACPP – Associação de Cozinheiro Profissionais de Portugal, de que o Chefe Silva foi um dos fundadores.

Pode consultar todos os capítulos já publicados em:

https://jornalsabores.com/category/gastronomia/chefe-silva/