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Carta gastronómica integra 114 receitas de 19 municípios

Do mar à serra e dos territórios rurais aos urbanos, a ‘Carta Gastronómica’ promove o património alimentar dos 19 municípios que compõem a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra.

Apresentada em abril, a Carta Gastronómica da Região de Coimbra integra 114 receitas e pretende salvaguardar e promover a gastronomia e os produtos endógenos dos 19 municípios que compõem a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM/RC).

Coordenada pela investigadora em patrimónios alimentares Guida Cândido, especialista em História da Alimentação, a Carta, editada em livro pela CIM/RC, transporta-nos do mar à serra e dos territórios rurais aos urbanos, através do sabor de 10 grupos de receitas compostos por pratos do mar (onde encontramos também o ‘fiel amigo’ bacalhau), pratos do rio, do açougue, da matança e da fermentação, e também da capoeira, da horta, do açúcar e do grão e farinha.

“Mais interessante do que os colocar por ordem alfabética de município, faz muito mais sentido ordenar pela origem dos produtos, porque o que está em causa é o território, a sua identidade territorial e geográfica, estando cada município, obviamente, identificado”, disse à agência Lusa Guida Cândido.

Contactada pela CIM/RC para fazer a coordenação da obra há cerca de dois anos, a investigadora aferiu e validou os conteúdos indicados pelos 19 municípios da Região de Coimbra.

“Eu coordenei os conteúdos que os municípios entenderam ser as suas referências na identidade gastronómica. Não fui indicar a cada município qual o património deles, porque eles é que sabem qual é, mas servi de aferidor”, explicou Guida Cândido e acrescentou que “a Carta Gastronómica, que surge como um documento estruturante no âmbito da Região de Coimbra como Região Europeia de Gastronomia 2021/2022, não é uma carta fechada, é uma carta aberta, com capacidade e elasticidades para crescer, sendo, nesta primeira edição, limitada a seis receitas identitárias por município.

A investigadora enfatizou a importância do território intrínseca a esta carta: “São seis pratos que cada município considera corresponder à matriz do seu património alimentar. Sem qualquer barreira de ter de incluir doçaria, ou entradas, ou o que for, mas sim ser fiel ao território.”

Apresentada no Dia Mundial do Livro, a Carta Gastronómica não apresenta 114 receitas distintas umas das outras, havendo pratos que se repetem, embora com nuances ou práticas diferentes na sua conceção.

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“Não deixei de duplicar, triplicar, quadruplicar, aceitar uma multiplicidade de municípios a mostrar a mesma receita. Porque cada uma delas acaba por ter uma abordagem diferente”, frisou Guida Cândido.

“Não se pode ter a pretensão de que só se come algo num determinado município, há práticas comuns. Se pensarmos nos campos do Mondego, não é só em Montemor-o-Velho que se comem pratos com arroz. E se o arroz-doce é um património comum da Região Centro, o arroz-doce de Coimbra não é o de Mira, que já tem as gemas de ovos. Mais importante do que ter 114 receitas diferentes, é ter 114 receitas que também mostrem as semelhanças e essa ligação territorial”, afirmou a investigadora.

Em declarações à Lusa, o secretário executivo da CIM/RC, Jorge Brito, destacou que a Carta Gastronómica é “mais uma iniciativa englobada na Região Europeia da Gastronomia 2021-2022, pretendendo qualificar as pessoas, o território e criar valor”.

“Mais do que fazer eventos, é criar esta valorização patrimonial”, afirmou, considerando que a Carta “é um trabalho de preservação da memória coletiva”.

Jorge Brito sublinhou que “ir às raízes, aceder a acervos históricos para não se perder aquilo que é o património identitário através da cozinha”, frisando também que a obra espelha “não uma lógica administrativa de cada município, mas aquilo que é o território”.

A Carta, indicou o responsável da Região de Coimbra, irá ficar disponível ao público “quer do ponto de vista físico, quer digital, e será matéria-prima para trabalhar um conjunto de ações subsequentes, através, por exemplo, da introdução do receituário em restaurantes que sirva de atrativo a que as pessoas venham ter uma experiência gastronómica no território da Região de Coimbra que não têm em mais lado nenhum”.

Entre outras iniciativas, serão produzidos tutoriais, nomeadamente conteúdos em vídeo, para ensinar a fazer as receitas.

Jorge Brito alertou, no entanto, para o facto da dimensão da gastronomia ser “um fim de linha”, sendo que “ninguém consegue valorizar este património, se não tiver todo o processo a montante de ter os produtos.” Aludindo à Semana da Chanfana, em Miranda do Corvo, onde a Carta Gastronómica foi apresentada, Jorge Brito fundamentou a sua afirmação sublinhando que “ninguém consegue cozinhar chanfana se não tiver gado”.

O secretário executivo da CIM/RC, concluiu o seu discurso chamando a atenção para a importância de ver este processo de valorização como um todo, afirmando que “é essa cadeia toda de valorização dos produtos a montante e da nossa agricultura, olhando sempre para a gastronomia, que temos de preservar, numa tentativa de ajudar o setor privado.”

 

Imagens: Taste Coimbra Region