//Caldeirada (4) – À Fragateiro da Moita

Caldeirada (4) – À Fragateiro da Moita

A Moita, à beira do rio Tejo, foi terra de marítimos e fragateiros.

Comecemos por recordar que os transportes fluviais durante muitas e muitas décadas foram assegurados por fragatas, varinos, canoas e outras embarcações à vela, cujos tripulantes eram os chamados ‘fragateiros’. Ao garantirem as trocas comerciais, contribuíram decisivamente para o desenvolvimento das pequenas povoações ribeirinhas e até de toda a região sul.
Para além das fragatas que usavam o rio Tejo como ‘estrada marítima’ entre o Ribatejo e Lisboa e vice-versa, também muitas outras navegavam no estuário do Tejo, também conhecido por ‘Mar da Palha’. E foi entre a tripulação destes barcos que nasceu a caldeirada à ‘fragateiro’ que abaixo se apresenta, associando a iguaria aos seus criadores.

Há relatos de trocas efetuadas em pleno estuário, com os fragateiros e ceder aos pescadores alguns dos produtos que transportavam recebendo em troca algum peixe, normalmente o que tinha menos valor comercial.
Como facilmente se percebe, não havia grandes possibilidades de escolher exatamente o peixe que haveria de entrar na caldeirada e, muitas vezes, era usada apenas uma espécie. Essa é a razão de muitas das receitas relacionadas com os fragateiros referirem apenas…peixe.

A Moita foi terra de marítimos e fragateiros, com uma culinária estreitamente ligada ao rio Tejo. E também aqui costuma dizer-se que a Caldeirada à Fragateiro da Moita tem ‘mesmo’ que incluir peixes do Tejo, dos quais a enguia e o choco são absolutamente obrigatórios.
Nesta receita tudo é cozinhado em cru ou seja, nos sucos dos produtos e ingredientes usados. A utilização de hortelã no final da confeção e os restos de batata desfeitos para incorporar o caldo da massinha são pormenores diferenciadores.

 

Receita de Caldeirada à Fragateiro da Moita

Ingredientes
1,5 kg de peixe; 1 kg de batatas; 1,5 kg de tomates; 2 pimentos grandes; 3 cebolas; 1 folha de louro; 2 dentes de alho; 1 malagueta de piri-piri; 1 ramo de salsa; 1 ramo de hortelã; sal e azeite q.b.

Preparação
É tudo colocado no tacho em cru, sem água, pois o cozinhado é feito nos próprios sucos dos peixes. Por seu lado, os vegetais devem ser, tanto quanto pos¬sível, da época. Os peixes moles, como a enguia, só devem ser acrescentados quando a batata começar a ficar cozida. Outra recomendação importante é que, mesmo no final, quando se retira do lume, não pode faltar o perfume inconfundível da hortelã.
Logo que se acaba de servir a Caldeirada, desfazem-se os restos de batata que ficaram no fundo do tacho, junta-se um pouco de água e massinha de cotovelo. A tempo de terminar a caldeirada, com o vagar que lhe é devido, a massa estará pronta para completar a refeição36.

Harmonização
Uma boa caldeirada pede por norma um vinho branco volumoso. Na região da Península de Setúbal as opções são variadas e facilmente se consegue encontrar um bom parceiro para este prato. O ideal será harmonizar com um vinho de aroma suave, com fruta delicada e elegante, cujo comportamento na boca seja redondo, afinado e com acidez discreta; um branco de bom porte, um lote de Fernão Pires e Moscatel de Setúbal é a nossa sugestão.

In: Sabores da Nossa Terra – Associação para o Desenvolvimento Regional da Península de Setúbal (ADREPES)

Foto Fragata: Arquivo Municipal de Lisboa