//Caldeirada (2) – Alcochete

Caldeirada (2) – Alcochete

Uma das poucas receitas que se conhecem que incluem chocos e eiroses.

Depois da contestação à inclusão de sardinhas na caldeirada à sesimbrense (pode ver AQUI) apresentamos agora uma receita onde aparecem chocos entre os ingredientes, com referência a marítimos que lhes tiram a pele e outros que os cozinham com ela, “porque é a pele que dá gordura e cor” dizem. Na verdade estes moluscos marinhos (chocos) não são muito habituais entre os vários peixes que se apresentam como OBRIGATÓRIOS na grande maioria das caldeiradas.
Sublinha-se ‘obrigatórios’ porque em muitos comentários surgem afirmações como: “a caldeirada à pescador TEM que incluir esta, aquela e a outra espécie de peixe”. Ora esta ‘obrigação’ não faz sentido, sobretudo se tivermos em conta a origem desta iguaria como alimento dos pescadores. Já imaginaram os pescadores com o tacho pronto à espera da refeição porque falta este ou aquele peixe que ainda não veio nas redes?

É fácil, atualmente, seguir uma receita, face à enorme oferta nos mercados ou mesmo nas grandes superfícies onde até se pode encomendar antecipadamente todo o peixe que se pretende incluir. Mas no mar, ou mesmo em terra, os pescadores e suas famílias e amigos, faziam a caldeirada com a espécie mais comum: “o que havia”.
Quanto às receitas, basta lembrar que terá sido em 1936 que apareceu o primeiro livro a apresentar uma variedade de caldeiradas portuguesas; ‘Culinária Portuguesa’ de Olleboma. Depois deste, muitos outros surgiram e nos últimos anos, parece que não há quem não lance livros de culinária ou crie mais um blog com receitas.
Quanto a esta Caldeirada de Alcochete, é apenas uma de várias que são associadas a esta terra de marítimos do Tejo destacando-se, em quase todas, a diferença no paladar porque os marítimos, puxando do mar um balde com água, nela amanhavam e lavavam os peixes e demais ingredientes.

A larga frente do concelho de Alcochete virada para o Mar da Palha condicionou o modo de vida das populações ribeirinhas, que encontravam na atividade piscatória um meio de subsistência como complemento do trabalho nos campos ou nas salinas.
A bordo dos barcos, os alcochetanos pescavam e comiam o que as águas lhes davam, preparando as suas caldeiradas com os produtos que tinham trazido de terra.
Nos ingredientes aparecem também eiroses que em algumas regiões é o nome atribuído a enguias mais grossas.

Receita de Caldeirada de Alcochete

Ingredientes
3 kg de peixe – tremelga (ou tramelga), chocos, pata-roxa, safio, tamboril e eiroses; 1,5 kg de batatas; 1 kg de cebolas; 1 kg de tomates; 2 pimentos; 2 dentes de alho; 2 dl de azeite; 1 molho salsa; 1 molho coentros; 1 folha de louro; sal, pimenta ou piripiri q.b.
Preparação
Amanha-se e salga-se o peixe uma hora antes de ser cozinhado. Num tacho, deita-se o azeite, o alho, a folha de louro, os coentros, a salsa e uma camada de tomates maduros, outra de cebolas e outra de pimentos, tudo cortado às rodelas. De seguida, colocam-se os chocos cortados aos pedaços e com pele, deixando ferver em cachão durante 5 minutos. Acrescenta-se água para o caldo, juntam-se as batatas cortadas aos quadrados e deixa-se ferver um pouco. Finalmente, juntam-se os peixes por ordem de dificuldade de cozedura: tremelga, pata-roxa, safio, tamboril e eiroses. Tempera-se com piripiri ou pimenta, a gosto, e retifica-se o sal. As eiroses, colocadas no cimo e de cozedura mais rápida, devem ser retiradas para um prato. Se levar sardinhas, sem tripas nem cabeças, o processo é idêntico. Serve-se a caldeirada e só depois se distribuem as eiroses ou as sardinhas com uma escumadeira e com cuidado, para não as escangalhar.

Harmonização sugerida pela CVR Península de Setúbal
Procure-se um vinho branco bem estruturado, seco no palato e com álcool equilibrado. Persistente, para acompanhar o sabor a coentros, incluídos na receita.
IN: Os Sabores da Nossa Terra – Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal