//As Rainhas que já não são ‘misses’

As Rainhas que já não são ‘misses’

Afastando-se do modelo dos concursos de beleza, ou de eleição de ‘misses’, em dez anos a iniciativa promovida pela AMPV ganhou um ‘estatuto’ próprio.

Em 2008 a Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), reconhecendo o sucesso da eleição da ‘Rainha das Vindimas’ que se realiza desde 1963 no âmbito das ‘Festa das Vindimas’ em Palmela e tendo em conta que outros municípios promoviam eventos semelhantes, avançou com uma iniciativa que juntou as eleitas de oito autarquias suas associadas, para uma ‘escolha’ nacional.

As primeiras edições da ‘Rainha das Vindimas de Portuga’ seguiram um modelo ‘inspirado’ no concurso de beleza feminina Miss Portugal, criado em 1959, mas a organização percebeu que era preciso aproveitar esta oportunidade para aproximar as jovens participantes da ‘cultura rural’ dos seus territórios.

Afastando-se do modelo dos concursos de beleza, ou de eleição de ‘misses’, em dez anos a iniciativa promovida pela AMPV ganhou um ‘estatuto’ próprio que a torna, atualmente, uma jornada nacional de convívio e valorização das jovens mulheres que nela participam, com um critério de ‘avaliação’ que vai muito para além da beleza.

As 17 jovens que estiveram este ano em Peso da Régua em representação de outros tantos municípios participaram num workshop sobre ‘Enoturismo’ e numa ação do programa ‘Wine in Moderation’, conheceram um pouco da região numa visita promovida pelo município duriense e realizaram ensaios com vista à apresentação que decorreu na noite de sábado, 7 de setembro, com o objetivo de eleger a Rainha e as Damas de Honor.
Para alcançar o objetivo, as candidatas participaram numa entrevista com os cinco membros do júri, que avaliaram os conhecimentos de cada uma relativamente ao tema ‘Enoturismo, vinha e vinho’ nos respetivos territórios concelhios. Uma prova que contribui com um terço da pontuação final. Os outros dois terços foram valorizados através de dois desfiles.

No primeiro, apresentaram-se com traje regional e fizeram ‘de viva voz’, ao público na plateia, um convite enoturístico para visita ao seu concelho.

No segundo, com o chamado traje de gala (ou vestido de noite), enquanto desfilavam os apresentadores leram um texto subordinado ao tema ‘A Vinha, o Vinho e o Mundo Rural’, da autoria de cada uma delas.

Eis aquilo que chamo a grande diferença: demonstração de conhecimento sobre o território vinhateiro que representam, valorização da tradição através da apresentação do traje regional, um convite de viva voz (ainda que, nalguns casos, exageradamente decorado) e um texto que transmite a sua visão ‘daquele’ mundo rural específico.

E sim, claro que também a simpatia, o sorriso, a elegância no desfile, o vestido apresentado e a
“perfeição agradável à vista e que cativa o espírito” ou seja, a beleza, de acordo com a definição de um dicionário, também contribuem para a difícil tarefa do júri na escolha da ‘Rainha das Vindimas de Portugal’.

No evento realizado em ‘Peso da Régua – Cidade do Vinho 2019’ foi surpreendente a preparação de um significativo número de candidatas quer na conversa com o júri, quer no ‘convite’ (pelo menos aparentemente espontâneo) ao público e até mesmo nos textos elaborados.

O trabalho que vem sendo realizado nas Câmaras Municipais com vista à preparação das candidatas é a razão principal destes resultados. E é justo sublinhar o município do Cartaxo que desde há alguns anos proporciona ‘aos’ participantes um conjunto de atividades que os prepara não apenas para a participação neste evento nacional mas, e sobretudo, lhes permite perceber que existe uma tradição/cultura ligadas à vinha, vinho e mundo rural.

Repararam que escrevi “os participantes” e não AS participantes? É que o município cartaxense inovou há algum tempo juntando à eleição da Rainha, também a do Rei das Vindimas, modelo que está já a ser seguido por outras autarquias.
Com ou sem ‘paridade’, o importante é que não se perca a oportunidade de promover junto dos jovens o mundo da vinha e do vinho porque conhecer, contribui para saber beber.

Amilcar Malhó
Nota – O texto reflete a ‘leitura dos factos’ do autor, que tem acompanhado o trabalho da AMPV e foi, nos últimos dois anos, presidente do júri da ‘Rainha das Vindimas de Portugal’.