//A Guerra e o vinho
o vinho e a guerra

A Guerra e o vinho

Vinho que não se vende, os prémios conquistados, garrafas como ‘armas’ e Millôr Fernandes.

“O Putin só pode estar bêbado, mas não é com vinho português”. Esta é uma das muitas frases disparatadas que podem ler-se na internet e, não fosse o assunto ser trágico, poderia até fazer sorrir, ou pensar, como é o caso da frase de ‘Millôr Fernandes’, no final deste texto.

Para lá do horror das consequências diretas na população ucraniana, esta guerra está já a afetar a economia mundial e, naturalmente, também a portuguesa, nomeadamente no que se refere às exportações de vinho para a Rússia e Ucrânia. Depois de consideráveis investimentos em promoção, em 2021 as exportações de vinho para o mercado russo aumentaram 61%, contabilizando um total de 45 milhões de euros e as perspetivas estavam em alta.

a guerra e o vinho

A Adega de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, por exemplo, só no último ano vendeu 1,5 milhões de euros de vinho verde para a Rússia e, face à realidade atual terá no futuro próximo um significativo ‘abanão’ financeiro.

No início de fevereiro, a poucos dias do início do conflito, a Confederação dos Agricultores de Portugal levou à 29.ª edição da Prodexpo Moscovo a maior representação de sempre de produtores de vinho portugueses. No concurso internacional promovido no âmbito deste certame as empresas portuguesas trouxeram da Rússia para Portugal dois grandes prémios, seis estrelas, 57 medalhas de ouro, 29 de prata e três diplomas.

A título de exemplo, só a Casa Ermelinda Freitas (Palmela) trouxe da ‘Moscovo ProdExpo 2022’, 2 ProdExpo Star, 4 Medalhas de Ouro e 5 Medalhas de Prata preparando-se para, já este ano, iniciar um significativo crescimento nas exportações para a Rússia e para a Ucrânia.

Esta é uma realidade que, evidentemente, não tem comparação com os muitos problemas humanos e financeiros que esta estúpida guerra está a provocar (até quando?) na Ucrânia, na Europa e no mundo. Mas o impacto nas nossas empresas, nomeadamente produtoras de vinho, acaba por ter reflexos também nas nossas economias regionais pois independentemente de quem exporta, é nos nossos territórios rurais que nascem as uvas e são muitos milhares os que dependem dos proventos dessas colheitas.

 

Garrafas portuguesas como ‘arma’

Outra nota de curiosidade relaciona-se com o facto de o Ministério da Defesa da Ucrânia ter aconselhado a população a fazer cocktails molotov para neutralizar os tanques russos que estão a invadir aquele país e, entre centenas de garrafas de vidro, terem sido avistadas algumas portuguesas.

Efetivamente, foi possível observar em fotos de agências internacionais, entre as muitas garrafas de vodka, algumas que testemunham a presença do vinho de Portugal, nomeadamente uma de vinho da marca ‘Santo Isidro’ da Adega de Pegões.

Sabendo-se que o vinho é, provavelmente, a mais festiva das bebidas, estou certo que muitos apreciadores desta bebida estarão, tanto como eu, ansiosos por erguer o copo e brindar a uma paz que tanto desejamos.

E a propósito deste tema, termino com uma frase do humorista brasileiro que, mais do que fazer-nos sorrir num momento como este, poderá levar-nos a refletir sobre as várias ‘leituras’ que esta brincadeira em forma de texto pode permitir.

 “Uma coisa favorável aos bêbados: nunca ninguém viu cem mil bêbados de um país querendo estraçalhar cem mil bêbados de outro país…” (‘Millôr Fernandes’)

 

Amilcar Malhó