//13 à Mesa

13 à Mesa

Há quem tenha a superstição de malefícios quando se sentam 13 pessoas à mesa.

A propósito deste tema, aqui fica um excerto de um delicioso texto de Bulhão Pato sobre a morte de Alexandre Herculano. (No final do texto, veja: Algumas ‘razões’ para que o número 13 seja associado ao azar)

Escreveu Bulhão Pato:
“Alexandre Herculano fazia anos a vinte e oito de Março. Nesse dia, os seus amigos mais íntimos iam jantar com ele. Em 1877, na véspera dos anos do mestre, João Pedro da Costa Basto e eu chegámos a Vale de Lobos. No dia seguinte, apareceram Henrique Augusto de Sousa Reis, o marquês de Sabugosa e José de Avelar.
Havia mais convivas. A srª D. Mariana Hermínia Meira, mulher de Alexandre Herculano, desde pela manhã que sentira os rebates de uma enxaqueca, a que era atreita, e que lhe não passava senão ao cabo de vinte e quatro horas largas.
Próximo ao jantar o ataque aumentava. Uma hora antes de irmos para a mesa, Avelar disse a Herculano:
– Olhe que somos treze!
O mestre, que tinha o enguiço do pão voltado, como homem justo em tudo respeitava os dos outros.
– O pior, meu amigo, é que não vejo agora que volta se lhe dê.
A senhora de um lavrador vizinho do Vale, senhora simpática e íntima da casa acudiu logo:
– Tudo se arranja facilmente. Eu mando à quinta buscar a minha filhita.
Assim se fez.
Descemos à casa de jantar. Ainda se não tinha servido a sopa, quando vimos, no rosto da dona da casa, que aumentava o seu mal-estar, e todos, com seu marido, instámos para que se retirasse. Era apenas uma indisposição, que não dava o mínimo cuidado, e o jantar principiou alegre; mas o dr. José de Avelar, que se assentara ao pé de mim, disse-me, muito baixinho:
– Sempre ficámos treze!
Alexandre Herculano esteve esplêndido, como nos dias da mocidade. Mais uma vez todos o admirámos comovidos!
Demorou-se a palestra até tarde. O marquês de Sabugosa, Sousa Reis e dr. Avelar partiam no comboio da madrugada. João Pedro da Costa Basto e eu ficámos por mais dois dias.
No último dia, ao jantar, contei umas anedotas, que deram no goto ao mestre. Riu, do riso franco e prolongado, que lhe era peculiar. Chegou o trem que devia conduzir-nos ao comboio da tarde. Herculano, na melhor disposição de espírito, veio acompanhar-nos até à calebe. Quando o carro partiu, uma nuvem envolveu subitamente o espírito de João Basto, e tal foi ela, que a muito custo conteve as lágrimas.
– Se não fosse – disse ele – a necessidade impreterível de estar amanhã em Lisboa, voltava para trás.
Ruim pancada lhe bateu o coração!
Era a última vez que apertava a mão do seu grande amigo!
A 13 de Setembro de 1877, sobre as dez horas da noite, Alexandre Herculano expirava na sua casa de Vale de Lobos.
Dias antes, José de Avelar – depois de haver observado o enfermo com olho de médico – entrou no gabinete de trabalho do mestre. Deixou-se cair desalentado sobre a cadeira onde Herculano se assentava para escrever e, passando a mão pela testa, nesse momento húmida de suor, disse-me:
– Éramos treze, no dia dos anos dele!
O seu funesto prognóstico resumia-se nessas palavras!
De então para cá não tornei a sentar-me a mesa alguma com treze pessoas.”

Algumas ‘razões’ para que o número 13 seja associado ao azar:
O 13 (treze), desde a Antiguidade Clássica, é o número do azar, o portador de coisas más. Nas Sagradas Escrituras, o capítulo 13 do livro do Apocalipse faz referência ao anticristo e à besta.
Os numerologistas consideram o 13 como o número que atua em desarmonia sobre as leis do universo.
Na Última Ceia estavam presentes 13 elementos – Jesus e os seus 12 apóstolos. Nessa ocasião, Jesus foi traído por Judas Iscariotes.

Para fortalecer ainda mais o negativismo do número, bem como o facto de ser evitada uma refeição em que 13 pessoas se sentem à mesa, diz a lenda que 12 deuses foram convidados para um banquete. Um deus, o deus do fogo, que não tinha sido convidado, apareceu e iniciou uma violenta discussão que terminou com a morte do deus solar, o preferido dentre os deuses.
Imagem: http://larpbrasil.blogspot.com