Vinho: quanto mais caro melhor?

Para Vasco d’Avillez,“este conceito está completamente errado”. Aníbal Coutinho acha que “a relação é idealmente verdadeira” e Mário Louro diz que “a lei da oferta e da procura faz a diferença”.

Apesar do crescimento do interesse e de existir cada vez mais informação sobre vinho, da realização de cursos, provas comentadas e a publicação de milhares de artigos técnicos, ainda há quem, por exemplo, compre um vinho para oferecer com base no preço. Quanto mais se «valoriza» o recetor do presente, mais caro se pensa que deve ser o vinho.

E não é apenas «de filme» a cena do indivíduo pouco conhecedor que, na mesa ou mesmo na garrafeira, escolhe um vinho caro na esperança de que essa seja uma forma de garantir a qualidade.

Talvez um pouco ridícula, mas ainda assim interessante, foi a proposta do canal do YouTube Asap Thought ao fazer um teste em que as pessoas bebiam um vinho branco francês de preço elevado e outro de baixo preço. O objetivo era identificar qual era o caro.

Como resultado, o vinho francês de custo elevado, o mais caro, recebeu um enorme conjunto de descrições negativas.

Eis um exemplo, que é ao mesmo tempo uma interessante curiosidade, sobre este tema:

Em 1989 foi leiloada uma garrafa de Château Margaux colheita de 1787que terá pertencido a Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos.

O valor chegou aos 500 mil dólares, pagos por William Sokolin que, mais tarde, o ofereceu num jantar no Four Season Hotel. Mas, antes de servi-lo, o empregado deixou cair a garrafa, que se partiu. Por sorte, o vinho tinha seguro e Sokolin recebeu 225 mil dólares de indemnização.

Neste caso, a história da garrafa, o ano de colheita e o facto de se tratar de um vinho considerado um dos melhores do mundo, foram fatores que muito contribuíram para o valor alcançado. Mas no mundo dos comuns consumidores, a realidade é outra, o que nos levou a pedir a colaboração de quem conhece o mercado dos vinhos em Portugal.

Vasco d’Avillez, presidente da Comissão Vitivinícola de Lisboa e ex-presidente da Viniportugal, entre muitas outras funções que desempenhou ao longo de mais de 40 anos ligado ao mundo dos vinhos:

O vinho, quanto mais caro melhor?

Não. Este conceito está completamente errado! Bom ou melhor ou muito bom é aquilo de que o Cliente gosta! Ora se esta for a base então temos inúmeros vinhos cujo preço, abaixo de cinco euros na venda ao Público (Chama-se PVP) é esclarecedor de que está ao alcance de todas as bolsas, e pode ser que agrade ao consumidor muito mais do que um outro de 50 euros.

Quais são os principais fatores para um vinho alcançar preços altos?

O primeiro fator é sem dúvida o Marketing!
O segundo fator é sem dúvida o Marketing!
O terceiro fator é sem dúvida o Marketing!

Oferecer um vinho deve ter em conta o valor monetário da oferta?

Não! Deve ter em conta o gosto de quem o recebe e o nosso gosto em oferecer!

Em sua opinião, o que é um vinho caro?

Para mim e para muitos portugueses que vivam aqui e tenham um salário médio, um vinho caro é aquele que custa mais de 10 Euros. Muito caro custará mais de 15 euros e a partir de 20 não o posso oferecer a ninguém…nem é preciso, para que o que o recebe goste muito!

Aníbal Coutinho, enólogo e crítico de vinhos, é responsável pela atribuição dos prémios w, entre outros marcos do seu percurso ligado a esta área:

O vinho, quanto mais caro melhor?

A relação é idealmente verdadeira. Mas o preço do vinho é uma construção não linear que combina o desenvolvimento sustentado do valor e da produção de uma marca com a satisfação do produtor e do comprador.
O Escondido custa mais de 100 euros mas a marca vai ganhando valor e interesse entre os clientes. A última colheita duplicou a produção, de 250 para 500 garrafas numeradas e individualizadas.

Quais são os principais fatores para um vinho alcançar preços altos?

História, qualidade superior, estilo de vida aspiracional, coleccionismo, atratividade. Aplicam-se as regras dos artigos de luxo.

Oferecer um vinho deve ter em conta o valor monetário da oferta?

Sobretudo deve surpreender positivamente. Qualquer oferta é um gesto de relação pessoal e de grande envolvimento.

Em sua opinião, o que é um vinho caro?

Usamos a palavra caro da pior forma. Os italianos usam-na para identificar algo precioso.

Mário Louro, um dos mais respeitados formadores portugueses na área dos vinhos, foi, entre muitos outros cargos, presidente do Concurso Nacional de Vinhos Engarrafados:

Vinho quanto mais caro, melhor?

Nem sempre o melhor vinho é o mais caro. As variáveis são muitas e algumas vezes os preços estão associados à fama das marcas.
Assusta-me quando uma só pessoa decide dizer que este é o melhor e portanto o mais caro e atribuir-lhe essa distinção porque esse valor não é de forma alguma atribuível por um Parker , por um Martins ou um Luís. Num conjunto de vinhos, um conjunto de pessoas poderá afirmar que naquele grupo ,o melhor está no conjunto ,por comparação, ou porque já avaliaram muitas vezes aqueles vinhos. Não é de excluir, nunca, o factor subjectividade como diria o meu Amigo MS João Pires.

Quais são os principais factores para um vinho alcançar preços altos?

Começamos pela idade da vinha, depois a escolha das variedades, o rendimento das mesmas, o tipo de colheita (manual), a vinificação, o estágio e o tempo de envelhecimento. A origem também manda no preço, mas associado temos a escolha de barrica. Depois, a lei da oferta e da procura faz a diferença.

Oferecer um vinho deve ter em conta, o valor monetário da oferta?

Para mim o valor está no vinho de que tenho maior estima familiar ou eventualmente envolve uma história que marca a garrafa. Tenho na minha posse uma garrafa que El-Rei D. Carlos oferecia nas caçadas aos seus convidados, que uma Senhora que me ofereceu. Pois para mim esta garrafa tem um significado muito maior, que o Vinho garrafeira CRF 1933, que já provei muitas vezes.

O que é um vinho caro?

Para mim caro é quando o meu orçamento não permite que o compre todos os dias, ou porque vou mantê-lo na minha garrafeira, à espera da «tal» ocasião. Não é apenas preço. É a origem, é a casta, é o ano, é o «caminho» dessa garrafa e tudo o que a envolve.

Publicado no Jornal dos Sabores em 12.04.2016

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