Vinho continua a ser «imagem» de campanhas anti-álcool

“Uma associação direta entre vinho e sinistralidade rodoviária é uma associação redutora…”; “Mostrar sempre um copo de vinho tinto, não é eficiente…”; “…é pena que não se decidam a inovar, pois isso seria também um contributo válido…”; “Sugerimos aos criativos da GNR que se atrevam a passar num curso de vinhos…”, são frases que integram as declarações dos presidentes da RECEVIN, CVR de Lisboa e CVR da Península de Setúbal e do enólogo Mário Louro.

A utilização da imagem do vinho nas mensagens que alertam para os perigos da condução após consumo de bebidas alcoólicas é uma situação há muito discutida. E também repudiada por quem entende que, existindo no mercado tantas opções de bebidas alcoólicas, algumas com um maior grau alcoólico que o vinho, não deve este ser (quase) a «imagem» oficial das mensagens que alertam para os perigos.

Recentemente, na página de facebook da GNR, onde são colocadas várias e muito úteis mensagens e alertas, apareceu um post com a imagem que reproduzimos. Mais uma vez, o vinho aparece como o «vilão» dos perigos da irresponsabilidade de conduzir com elevada taxa de alcoolemia.

Evidentemente que não pode estar em causa a necessidade de alertar para este problema real e trágico, mas é preciso encontrar outra forma de o fazer.

O Jornal dos Sabores pediu a quatro personalidades ligados ao mundo do vinho um comentário sobre esta questão que, de forma frontal e responsável, prontamente responderam. Solicitámos também uma declaração à GNR, que até ao fecho da edição não recebemos.

“Uma associação direta entre vinho e sinistralidade rodoviária é uma associação redutora…”

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José Calixto, presidente da RECEVIN – Rede Europeia de Cidades do Vinho e da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz.

“Enquanto Presidente de um Concelho produtor de vinho e Presidente de uma Associação que representa 600 cidades produtoras de vinho por toda a Europa, a RECEVIN, a temática da sinistralidade rodoviária associada ao consumo excessivo de álcool preocupa-me e muito. Por esse motivo, a sensibilização para o consumo moderado de vinho tem sido um denominador comum em todas as iniciativas da RECEVIN pois entendemos que o vinho deve ser sempre consumido com moderação, deve ser entendido como um fator de identidade social e cultural dos Povos, elemento fundamental para o desenvolvimento económico dos Territórios. Uma associação direta entre vinho e sinistralidade rodoviária é uma associação redutora de um problema com múltiplas variáveis.”

“Mostrar sempre um copo de vinho tinto, não é eficiente…”

 

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Vasco d’Avillez, presidente da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa.

“O cuidado com o álcool é sempre necessário mas a maneira de chamar a atenção para este problema, sobretudo pelas autoridades de trânsito, tem que ser muito mais eficiente.
Deveriam chamar a atenção para a quantidade ingerida e penso sobretudo nas cervejas e deveriam chamar a atenção para as bebidas espirituosas que têm 40 ou mais graus de álcool. Só depois seria de mencionar o Vinho.
Mostrar sempre um copo de vinho tinto, não é eficiente e não chega onde querem chegar, pelo que não resolve o problema.”

“…é pena que não se decidam a inovar, pois isso seria também um contributo válido…”

 

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Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal.

“ No caso das campanhas anti-alcool a tradição ainda continua a ser o que sempre foi, é pena que não se decidam a inovar, pois isso seria também um contributo válido para não massacrar sempre os mesmos (contribuindo por certo para melhorar a eficácia das campanhas), os mesmos que ao contrário de outros álcoois, puxam pelo nome de Portugal por esse mundo fora e são um exemplo de inovação, responsabilidade, competitividade e iniciativa que muitos gostariam de seguir mas com que poucos são capazes de ombrear! Um pouco mais de respeito seria, também por isso, bem merecido.”

“Sugerimos aos criativos da GNR que se atrevam a passar num curso de vinhos…”

 

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Mário Louro, reconhecido enólogo e formador.

“Sempre o vinho a servir de imagem às campanhas da GNR que não nos falam dos álcoois sem cor, que muitas vezes bebidos em doses superiores ao vinho são causadores de índices mais elevados de alcoolemia e cirroses hepáticas, face à existência de álcoois superiores na sua constituição. Sugerimos aos criativos da GNR que se atrevam a passar num curso de vinhos na sua própria formação de agentes, para que percebam e entendam o vinho no total dos seus constituintes e na riqueza que é a aprendizagem da utilização de todos os sentidos.”

 

Imagem de capa: página de facebook da GNR

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