//Saiba mais sobre o S. Martinho

Saiba mais sobre o S. Martinho

A água-pé, a lenda, a celebração das colheitas e as «festanças enogastronómicas».

Ainda se vai encontrando alguma água-pé cuja comercialização é proibida na União Europeia, mas que em Portugal pode ser bebida «na fonte», como refere o artigo 6º do Decreto Lei nº 35 846 de 2 de Setembro de 1946 que determina: “só é permitido o seu consumo e destilação nas casas agrícolas”.

Restrição que não se verifica com as castanhas, preferencialmente portuguesas, que são consideradas internacionalmente as melhores, o que facilita as celebrações do dia de S. Martinho, a 11 de novembro, data em que este Santo, falecido no ano de 397, foi a enterrar em Tours, França.

A celebração do S. Martinho está associada a uma lenda sobre um soldado romano, mais tarde conhecido por Martinho de Tours, que ao passar a cavalo por um mendigo quase nu, como não tinha nada para lhe dar, cortou a sua capa ao meio e ofereceu metade ao mendigo. Estava um dia chuvoso e diz-se que, nesse preciso momento, parou de chover, levando ao sempre aguardado “Verão de São Martinho”.

O hábito de se fazerem «festanças gastronómicas» não terá qualquer relação direta com o Santo que lhe «empresta» o nome, mas antes com o facto de o seu dia coincidir com a época do ano em que se celebra o culto dos antepassados e com a altura do calendário rural em que ainda se fazem alguns trabalhos agrícolas mas, sobretudo, se começa a usufruir de algumas colheitas (do vinho, dos frutos), o chamado ciclo do outono/inverno, como se percebe por ditados populares como:

Pelo S. Martinho, mata o teu porco, assa castanhas e prova o vinho; Em dia de São Martinho, semeia os teus alhos e prova o teu vinho; Pelo São Martinho, semeia a fava e o linho; Se queres pasmar teu vizinho lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.

Nas associações, nos clubes, em grupos de amigos, em família, ou mesmo em restaurantes, seja com oferta de castanhas, seja com programação específica, um pouco por todo o lado se assinala a data com os tradicionais magustos, sobre os quais o conceituado etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990) escreveu: “O S. Martinho, como o dia de Todos os Santos, é também uma ocasião de magustos… Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada… (in As Festas. Passeio pelo calendário, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987).

A exagerada influência do vinho nestas celebrações é evidente, também, no conhecidíssimo quadro «Os Bêbados» ou «Festejando o São Martinho», um óleo sobre tela de 1907 da autoria de José Malhoa que mostra um grupo de bêbados a festejar o São Martinho. Ou ainda, nos versos de um poeta anónimo do século XIX que diz: “Dia votado às moafas/aos pifões e cabeleiras/carraspanas, bicos, turcas/sumatras e bebedeiras.

O vinho continua, de facto, a ser uma das referências destes festejos onde os participantes quase sempre exageram na aplicação dos provérbios relacionados com a «ida à adega», embora tenhamos que reconhecer que há hoje uma maior consciência da necessidade de beber de forma moderada. O magusto de S. Martinho, dependendo das regiões, inclui tradicionalmente a água-pé, a jeropiga, as castanhas, a batata-doce e as sardinhas.
Com a proibição de venda de água-pé e sendo a jeropiga um «vinho doce», nos últimos anos o vinho tinto (jovem) tem ganho a preferência dos participantes nos magustos.

O que não pode igualmente faltar são as castanhas, outrora o sustento das populações de regiões como Trás-os-Montes e as Beiras. Estas são, aliás, as principais regiões produtoras já que o castanheiro encontra as melhores condições essencialmente em zonas com altitudes superiores a 500 m e baixas temperaturas no inverno. A sul do Tejo, a exceção como zona de produção é o concelho de Marvão, ainda assim, já no interior centro.