//O Peru de Natal

O Peru de Natal

Há 50 anos ainda vinham vendedores a Lisboa, trazendo os perus vivos, pelas ruas da cidade, para os clientes escolherem.

Até 1960/70, alguns dias antes do Natal os perus desciam à cidade, conduzidos pelos vendedores que o faziam ‘passear’, em grupos, por bairros modernos como as chamadas Avenidas Novas. Era o tempo em que se comprava o peru vivo, que se embebedava com aguardente antes de matar e preparar para as festividades natalícias.

O escritor Ramalho Ortigão (1836-1915), no seu livro ‘As Farpas’ escreveu, a este propósito:
“Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de cana são esses os mais tenros.”

A história do Peru

Originário do México, o peru foi o principal alimento dos ingleses quando, nos Estados Unidos, assinalaram o primeiro dia de Ação de Graças.

Os espanhóis foram os europeus que os viram pela primeira vez, quando colonizaram o México. Trouxeram-nos para a Europa no século XVI, um período em que eram servidos gansos, cisnes e pavões, consideradas aves nobres. Mas o peru, para além de ser mais barato, ganha peso mais facilmente sendo, portanto, mais interessante do ponto de vista comercial.

Na Europa começou a fazer sucesso sobretudo quando em 1549, foi oferecido à rainha Catarina de Médicis, em Paris. No banquete foram servidas 100 perus e foi tão apreciado que se tornou o símbolo de alimento das grandes ocasiões.

O filósofo da gastronomia Brillat Savarin (1755-1826) dizia que o peru “é a maior, se não a mais fina, pelo menos a mais saborosa entre as aves domésticas, pois possui a qualidade única de reunir em torno de si todas as classes da sociedade”. Tanto homens do povo como os aristocratas juntavam-se para saborear o peru em comemorações.

Nos Estados Unidos, os índios criavam perus antes da chegada dos colonizadores ingleses que, para comemorar a primeira grande colheita de produtos cultivados, mandaram os indígenas serviram peru. A partir de então, criou-se o hábito de comer esta ave no Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças.
O Dia de Ação de Graças, é celebrado na quarta Quinta-feira de Novembro e é também conhecido como o «Dia do Peru» em que as famílias se juntam e o prato principal da refeição é, precisamente, o peru assado. Neste dia feriado, são consumidos 40 a 45 milhões de perus nos Estados Unidos e o Presidente concede o perdão a duas aves que vão viver para um parque.

Por se tratar de uma ave associada a grandes banquetes e comemorações e também pelo simbolismo que adquiriu nos Estados Unidos numa data tão simbólica como o Dia de Ação de Graças, o peru começou a fazer parte das comemorações natalícias, nomeadamente em Portugal. Era comido, sobretudo, ao almoço do dia de Natal pois na véspera, não devia comer-se carne.

No nosso País, felizmente, ainda há a tradição do Capão à Freamunde (recheado) sobretudo nas regiões do Norte de Portugal, em detrimento do peru que, como se refere, é uma tradição «importada»

Foto vendedores de perus: Arquivo Municipal de Lisboa