Mar tem zona que pode alimentar o mundo

Há uma zona nos mares entre os 200 e os mil metros de profundidade que “pode alimentar o mundo” mas cuja exploração deve ser cautelosa.

A revelação resulta de um estudo que foi publicado na revista «Frontiers in Marine Science» e alerta para o risco da exploração excessiva daquela zona, “que alberga uma vasta comunidade de peixes, lulas e crustáceos, e cuja biomassa ultrapassa a totalidade das pescas feitas actualmente em todo o mundo”, explica um comunicado da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Da equipa de autores do estudo faz parte Ricardo Serrão Santos, do MARE-Universidade dos Açores, que em conjunto com cientistas de instituições espanholas, dinamarquesas e britânicas diz que “há uma mina de ouro para alimentação humana” entre os 200 e os mil metros (chamada zona mesopelágica), fonte de proteínas e ómega-3, mas que ainda é pouco conhecida.

É uma das zonas menos investigadas do ecossistema de mar aberto e uma das “grandes lacunas no nosso conhecimento”, explicou à Lusa Ricardo Serrão Santos numa declaração por escrito, acrescentando que só recentemente “se verificou que a biomassa existente neste ambiente é extremamente superior ao que se suspeitava”.

No futuro, admitiu, essa zona de profundidade do mar pode ser explorada para produção de farinhas e óleos a partir dos peixes, considerados muito ricos em ómega-3.

Ricardo Serrão Santos explicou que os organismos que vivem nessa zona do oceano vêm à noite à superfície para se alimentar e protegem-se durante o dia nas águas profundas. É lá a “grande reserva alimentar” dos predadores oceânicos (como atuns ou tubarões).

“Pensa-se que a biomassa de peixes pelágicos (e só peixes, sem contarmos com o invertebrados) é 100 vezes a captura anual mundial de pescado e 200 vezes a biomassa estimada de 24 mil milhões de frangos do mundo que é considerado o mais numeroso vertebrado à superfície da terra”, explicou o cientista.

De acordo com o comunicado, o estudo desta “quinta dimensão” do planeta deve ser encarado com prioridade e antes de se iniciar a exploração tem de se começar a fazer o conhecimento “tão vasto quanto possível”, dos habitats.

“A quantidade de vida mesopelágica é enorme e como tal desempenha um papel fundamental no ciclo do carbono global.

A água do mar absorve toneladas de dióxido de carbono da atmosfera, incluindo a que é produzida pela queima de combustíveis fósseis. Os organismos, como os peixes mesopelágicos, usam carbono para construir os seus corpos”, explica Ricardo Serrão Santos.

Por isso, disse ainda, esses peixes são “aliados” contra as mudanças climáticas, como são fundamentais para a alimentação de grandes predadores e de aves marinhas, pelo que é necessário cuidado na exploração do recurso.

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