Má alimentação tira anos de vida

O nutricionista Nuno Borges afirma «sem papas na língua» que em Portugal, “o que nos tira mais anos de vida é a má alimentação, não é o tabaco ou a falta de exercício físico”.

Em busca de uma alimentação mais saudável, os portugueses começaram a cortar o consumo de alimentos que tradicionalmente faziam parte da nossa dieta e que, ao contrário do que se pensa, não fazem mal. E substituem-nos pelos chamados super-alimentos como a quinoa ou as sementes goji, que também não são tudo o que se anuncia.

O problema é que estas opções que “as pessoas fazem porque querem evitar alimentos que fazem supostamente fazem mal e ingerir outros que se pensa fazerem milagres” nem sempre são as mais acertadas. Por exemplo, “as quinoas são um super-alimento como o é o grão-de-bico”, aponta o professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Nuno Borges não gosta da designação super-alimento – “são alimentos com propriedades nutricionais interessantes” – mas reconhece que há claramente uma tendência dos portugueses procurarem benefícios nestes novos alimentos pensando que têm propriedades que não encontram na dieta tradicional.

Ao mesmo tempo, registou-se “outra tendência que é eliminar alimentos da nossa alimentação que têm glúten ou deixar de beber leite. Não estamos a eliminar as gorduras ou refrigerantes, que seria positivo, mas alimentos que não fazem mal. O leite tem visto o seu consumo cair 8% ao ano, em Portugal. O consumo de glúten também está a cair, nos EUA já uma em cada cinco pessoas tenta fazer uma dieta sem glúten e não é por terem alergia. Eliminando-os podem estar criar situações de desequilíbrio nutricional”, alerta.

Estes modelos de comportamento alimentar vão ser conhecidos em pormenor quando estiver terminado o inquérito nacional da alimentação. Os resultados (que devem ser conhecidos no final do ano ou início de 2017) vão permitir uma comparação com o único inquérito feito anteriormente (em 1980).

Com a nutrição na moda torna-se imprescindível que os profissionais da área procurem evidências científicas para desenvolver o seu trabalho. Cabe aos nutricionistas “preferir a boa ciência, escolher os dados com qualidade, já que toda a gente dá as suas opiniões sobre nutrição e alimentação e muitas vezes não é nada ou é pouco fundamentado”.

Até porque o que mais facilmente capta a atenção da sociedade são “as soluções milagrosas”, que tomam a liderança por “prometerem um determinado benefício e não pela qualidade científica dos argumentos”.
Mas também há modas que cumprem os requisitos da boa ciência e dos nutricionistas. “É o caso da opção por comer só produtos orgânicos”. Uma opção boa, mas que deve seguir a regra de “uma alimentação equilibrada, senão não vale de nada”.

Comum a todas as épocas continuam as dietas que têm apenas como objetivo emagrecer. “Há sempre as mil e muitas maneiras de controlar o peso, que não passam disso e não traduzem nada de positivo”, avalia Nuno Borges.
O especialista lembra que a alimentação tem de ser encarada como um fator central para o dia-a-dia. Admite que este é um tema que “está na moda”, mas que tem de ser levado a sério, já que “em Portugal, o que nos tira mais anos de vida é a má alimentação, não é o tabaco ou a falta de exercício físico”.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *