//“Lançar ao chão lágrimas que são os ouriços”

“Lançar ao chão lágrimas que são os ouriços”

Assim escrevia Miguel Torga, em 1941, sobre as árvores que nos dão as castanhas.

O poeta e escritor Miguel Torga em 1941 escrevia assim sobre as árvores que nos dão as castanhas: “Só em novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são os ouriços…
Outro poeta do século XX, José Carlos Ary dos Santos, escreveu «O Homem das Castanhas», que Carlos do Carmo brilhantemente interpreta cantando: “Quem quer quentes e boas, quentinhas/ a estalarem cinzentas, na brasa/Quem quer quentes e boas, quentinhas/Quem compra leva mais calor p’ra casa”.

As castanhas
A dificuldade em conseguir farinha para pão e o facto de a batata ainda não ter sido introduzida na alimentação dos portugueses, fez com que este fruto fosse a base da alimentação no século XVII, especialmente em regiões como Trás-os-Montes e as Beiras.

O castanheiro, encontra as melhores condições essencialmente em zonas com altitudes superiores a 500 m e baixas temperaturas no inverno pelo que, em Portugal, a castanha é muito abundante no interior Norte e Centro, sendo Marvão a exceção a sul do rio Tejo.

Atualmente a castanha tem vindo a ser cada vez mais usada na culinária em guarnição de pratos, nomeadamente em puré, no forno, ou fritas, em doçaria, compotas e sopas, entre outras. Os novos chefes da cozinha portuguesa estão a usar a castanha em criações culinárias mais elaboradas, mas para muitos, o expoente máximo do requinte é a especialidade francesa «marron glacé» (caramelizadas) sendo conhecida a preferência por castanhas portuguesas. Diz-se que na base deste doce poderá estar o hábito de os romanos conservarem os frutos secos em ânforas com mel, apercebendo-se que as castanhas ficavam divinais.

Naturalmente que, sobretudo em época de magustos, as formas mais populares de as consumir é cozidas com erva doce ou assadas. Sobretudo neste último caso é fundamental não esquecer o corte na casca que evita que rebentem, pois como metade do pesa da castanha é água, quando assam, a água transforma-se em vapor que vai fazendo pressão e, se este não tiver por onde sair, há rebentamento.

Esta semente do castanheiro envolta num ouriço, é um fruto particularmente rico em hidratos de carbono complexos e a quantidade de gordura que apresenta, é em tudo muito semelhante à dos cereais, consequentemente, muito inferior à dos restantes frutos gordos.
A popular «castanha pilada» foi uma forma encontrada pelos antigos de conservar a castanha, de modo a poder ser consumida mais tarde. Hoje, o processo de congelação permite-nos usar as castanhas praticamente todo o ano.