Como os Humanos se Nutriam Melhor no Paleolítico

Estudos apurados comprovaram que na época do Paleolítico os seres humanos se nutriam melhor. As causas eram essencialmente devidas ao facto que, naquela época, os humanos tinham que partilhar os alimentos com a natureza. A natureza os servia biologicamente melhor, respeitando as origens genéticas e os apelos instintivos das apetências implementaram-se ao longo dos séculos nos seus metabolismos.

T7UQOmA qualidade dos alimentos estava livre das poluições e os frutos e legumes seguiam os respectivos ciclos naturais. Não existiam os cultivos agrícolas e a dificultada colheita dos alimentos limitava os consumos, pelo que uma moderada abundância obrigava a uma movimentação diária pela procura.

Os desejos da fome habituavam aos condicionamentos das vivências que a vida natural impunha, ao contrário do que a nossa vida actual, impulsionada pela dinâmica da ciência e abundância, que promove os opostos. A indústria agro-alimentar corrompe, impondo elaborados condicionamentos culinários que influenciam a nossa alimentação, enriquecendo sabores complexos e aliciantes, muitas vezes elaborados quimicamente, estudados de forma científica e baseados em pressupostos e orientações de marketing para aumentar os consumos.

Criam-se vícios gustativos com produtos alimentares altamente nocivos aos nossos sistemas imunitários mas, por reflexo, dentro destes circuitos alimentares, enriquecemos os laboratórios farmacêuticos em união com as grandes indústrias agro-alimentares. Em nome da ganância, inventam-se as mais mirabolantes filosofias gastronómicas que debilitam economicamente os mais débeis e, no nosso país, a própria Segurança Social.

Tudo é idealizado e organizado para nos transmitir prazer, num conforto ilusório, viciando as nossas memórias gustativas e olfácticas, chegando-se ao paradoxo de criarmos um sistema viciado que vai contra a genética e, por reflexo, contra a saúde.

Os políticos clamam, com os seus apelos, contra as carências económicas nas instituições sociais devido à enorme quantidade de doentes crónicos. Nas sociedades ocidentais multiplicam-se no dia-a-dia as doenças crónicas mas persistimos em não analisar as verdadeiras origens dos desequilíbrios alimentares que são os seus geradores. Não sabemos salvaguardar a nossa saúde com sabedoria nem tentamos limitar este flagelo alimentício.

Em geral, em vez de analisarmos os verdadeiros problemas da alimentação, continuamos serenamente sem reconhecer e admitir os erros, modificando o que está errado para nosso benefício no futuro. Observamos que se evolui para o aumento da longevidade com os estudos médicos e farmacológicos mas, ao mesmo tempo se criam inúmeras fragilidades fisiológicas, também alimentadas pelo sedentarismo da vida moderna, grande cúmplice de muitos males que nos afectam no presente.

Na segunda metade do século passado, com início na década de 50, a indústria alimentar dinamizou as suas descobertas, provocando o aumento das doenças crónicas através duma alimentação errada. Falo do colesterol, da diabetes, das doenças cardiovasculares, das hipertensões, dos pâncreas fragilizados e dos rins adoentados. Por essa época, a engenharia alimentar introduziu, de forma hábil e disfarçada, um novo componente na nossa alimentação, fazendo o processamento de gorduras de diversas origens, vegetais e animais, que deram origem às famosas e sempre presentes margarinas.

As virtualidades das gorduras de diversas origens, publicitadas de forma genial, criaram os citados gulosos hábitos na gastronomia e as populações acreditam em tudo quanto as publicidades valorizavam. As pessoas dizem que os produtos são bons no sabor e são mais baratos, mas ninguém pensa nos custos com o recurso à medicina e farmácia que estes alimentos irão implicar, para além de todos os sofrimentos e limitação dos anos de vida.

Quando, no título deste artigo, refiro que os seres humanos do Paleolítico se nutriam melhor, quero lembrar que comiam carne de caça sem gordura, proveniente de animais selvagens que eram musculados e viviam em liberdade, complementarmente, nutriam-se de fruta e de legumes que não eram quimicamente poluídos.

Hoje, devido a um ambiente poluído, as más consequências se reflectem nas nossas células que navegam na água do nosso corpo, que corresponde a 75% do seu peso. Os químicos introduzidos nos terrenos aumentam a produção mas empobrecem-nos a todos ao provocarem a poluição da terra e do ar, originando misteriosas doenças que nos afligem no surgir da velhice.

Vale a pena interrogarmo-nos se será bom vivermos mais anos. Falando por mim, repondo afirmativamente mas com a condição de envelhecermos com saúde mas também coloco a questão se não será melhor recorrermos aos médicos quando estamos com saúde. É que, quando estivermos doentes, seremos um dos 1.800 utentes que um médico de família terá a seu cargo e de que não poderá cuidar devidamente.

O corpo humano não é uma máquina que se produz como um automóvel numa cadeia de produção, pelo que devemos idealizar uma outra visão da vida, uma forma de bem-estar diferente. Um médico deve ter tempo para estudar, para racionalizar o seu pensamento e deve ganhar bem a sua vida, trabalhando com tranquilidade para preservar a verdadeira e mais importante qualidade da nossa vida: a saúde.

Esta é uma temática complexa merecedora de uma abordagem mais aprofundada e que em breve retomarei noutros artigos.

Eno-gastronomicamente Vostro.

Gil Gilardino (Giuseppe Gilardino)
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NR – Gil Gilardino, Chefe de cozinha e gastrónomo, emigrante italiano há muitos anos em Portugal, é presidente do IGA – Instituto do Gosto e dos Aromas e colaborador regular do Jornal dos Sabores.

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