Algumas comidas de Páscoa em Portugal

Tradicionalmente, após o jejum (mais ou menos rigoroso) na Quaresma, segue-se a mesa farta (ou forte) para assinalar o domingo de Páscoa.

Em Portugal são ainda conhecidas variadíssimas propostas de comeres de Páscoa, muitas delas, ao contrário do que acontece com o Natal, a perderem-se na memória dos mais velhos.

Tratando-se de uma festa pós-jejum é natural que praticamente não se conheçam propostas gastronómicas relacionadas com o peixe.

Na região do norte, caraterizado pelos folares, doces ou ‘gordos’, ainda hoje algumas pessoas falam em “oferecer” o folar, presentes que os padrinhos dão aos afilhados e os paroquianos ao pároco da freguesia. Mais a sul, também ainda os mais velhos se referem a “dar as amêndoas”, lembrando que estas são, igualmente, um símbolo pascal.

São várias as formas de confecionar os folares da Páscoa, embora uma grande parte tenha em comum os ovos cozidos inteiros, meio incrustados e visíveis sob tiras de massa que os recobrem.

Os folares podem ser doces ou não, e apresentam várias versões. Do ponto de vista da tradição, há também alguma dificuldade em distinguir a influência alimentar pascal do folar, em relação à bola. Uma forma simplificada de o fazer é concluir que a bola não leva ovos, enquanto o folar não os dispensa.

Vejamos algumas propostas gastronómicas associadas à Páscoa, integradas no volume II de «Festas e Comeres do Povo Português», da autoria de Maria de Lourdes Modesto, Afonso Praça e Nuno Calvet, destacando apenas algumas particularidades que as diferenciam:

2.1Bola de Carne do Alto Barroso, com bifinhos de vitela; Empada de Moncorvo, com presunto, salpicão chouriço de carne e toucinho; Empada de ovos e carne de Vila Nova de Foz Côa, com frango, lombo de porco, carne de vitela, presunto com gordura e chouriço de carne; Folar de Chaves, com carne de porco entremeada gorda, previamente temperada e frita em fatias; Folar de Valpaços, com três gorduras (manteiga, banha e azeite) e a possibilidade de integrar um frango assado ou estufado. Refira-se que o Folar de Valpaços é, desde o início de 2017, reconhecido pelo sistema de qualificação da União Europeia como produto IGP – Indicação Geográfica Protegida.

No Grande Porto a tradição pascal inclui comer carne de bovino e frango, assado na assadeira grande, de barro vidrado de Barcelos, vindo depois, à sobremesa, o pão-de-ló de Margaride e as amêndoas.

Em Valença, no Minho, é tradição confecionarem-se os borrachos, fritos que levam ovos, açúcar, pão ralado e canela. Na Beira, fazem-se no forno uns pequenos bolos chamados ‘borrachões’, talvez por a receita incluir aguardente entre os ingredientes.

A propósito de Beiras refira-se, de novo, o folar comum a quase toda a região e que, na sua maioria é confecionado como um bolo de massa seca, doce, e ligada, à base de farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha ou pingue, açúcar e fermento, e condimentado com canela e erva-doce. Conforme o seu tamanho leva em cima, um ou vários ovos cozidos inteiros.

A sul, o cordeiro que faz parte do ritual da tradição hebraica, é «assumido» como borrego. No Minho e região do Porto chamam-lhe ‘anho’.
Como exemplo de «Páscoa gastronómica» no Alentejo, vejamos agora, retirada da obra referida, a ‘ementa pascal’ em Castelo de Vide:

Almoço de domingo – Sopa de sarapatel (pão, miudezas de borrego, sangue…), Mioleira de borrego com ovos, Queijadas de requeijão, Bolo finto, Biscoitos escaldados e Esquecidos (pequenos bolos, no forno, com ovos, açúcar e farinha).

Jantar de domingo – Cachafrito de borrego (carne frita e depois «estufada» na marinada); Pastéis de massa tenra, Salada de alface ou agrião e Queijadas de requeijão.

Na segunda-feira de Páscoa era habitual a ida ao campo, com um farnel, sendo quase obrigatório levar pernas de borrego assadas e queijadas.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *